segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Capítulo 5 - Desventuras do dia-a-dia


  

Capítulo 5- Desventuras do dia-a-dia


MEREDITH


Meredith sempre foi filha única em toda a sua vida e sempre pensou em como seria ter um irmão ou irmã. O que ela com certeza não imaginava era que seu irmão mais velho tinha uma tendência de ignorá-la.
    Ela demorou para se levantar pois no dia anterior não conseguira dormir rapidamente. Ela queria ter tido o prazer de continuar dormindo, mas ficar na cama estava sendo insuportável. Desceu a da beliche e observou que Percy não estava na beliche de cima. Isso podia querer dizer que ele estava no pavilhão tomando café ou vagando pelo chalé.
  Ouviu o barulho da descarga, é claro que era Percy, a não ser, talvez, que alguém tenha invadido o chalé para usar o banheiro. Ele saiu do banheiro com uma toalha enrolada na cabeça. Depois de secar os cabelos ele largou sua toalha na beliche, se dirigindo para a saída imediatamente, ignorando a irmã mais nova.

  - Bom dia, Percy. - ela falou numa tentativa de chamar a atenção do irmão.
- Oi... - respondeu vazio.
Ele saiu do chalé sem sequer olhar para a cara da menina. Aparentemente não estava no humor para conversas.
Depois de ser ignorada completamente, Meredith seguiu até o pavilhão para tomar um bom café da manhã. Se havia algo no mundo que ela gostava mais que participar das brincadeiras dos gêmeos Stoll era, com certeza, comer. Comeu um prato de ovos com bacon acompanhado de um copo de achocolatado.
 Logo após do café, ela resolveu refazer seu tour pelo Acampamento e pensar em como seria agora depois da sua reclamação. Ela não conseguira encontrar Michelle na noite passada e foi um empurra-empurra só para levá-la ao chalé 3. 
  Uma menina com cabelos que pareciam alterados pela exposição do sol correu em seu encontro com um sorriso travesso, deixando bem claro que escondia algo que valia a pena ser dito. Mas Meredith não estava - e nunca estava - no ânimo para fofocas. 
  - Olá, eu me chamo Aria Clifford, sou filha de Apolo. Tem um irmão meu que quer encontrar com você no Estábulo. - Aria piscou. - Mas é só uma sugestão.
- Irmão seu? - Meredith ponderou. - Quem é?
Aria contorceu o rosto em uma expressão confusa.
- Você não sabe quem é?
- Se estou perguntando é porquê não sei. - Meredith fingiu uma risada.
Ela tinha sido muito grossa com Aria Clifford, mas, esta pareceu não notar nenhuma grosseria.
- Ah, sim! - Aria riu histérica. - Enfim, acho melhor ir logo. 
Meredith tentou ver o lado positivo da situação, que era uma coisa que ela fazia com frequência, para tentar amenizar os problemas que se metia. Pelo menos uma menina do chalé de Apolo simpatizou comigo, pensou. Aria parecia ser legal, tirando seu jeito histérico e muito inocente. Ao contrário do meu "simpático" irmão.
   Enquanto tentava chegar no Estábulo, ela pensou em Michelle. Realmente precisava conversar  com a melhor amiga, Michelle poderia não ser muito boa com os sentimentos das outras pessoas, mas, quando era Meredith quem precisava de consolo, Michelle sempre ajudava. 
       Quando chegou no Estábulo, se deparou com um cavalo com asas. Um pégaso, concluiu. Ficou hipnotizada pelo animal todo branco, que parecia cintilar. Ela acariciou o animal, que adorou o carinho que recebia.
  - O nome dele é Héspero. - a voz de um semideus que ela não conhecia se manifestou.
- Como sabe disso? - ela perguntou.
- Contaram pra mim.
  O rapaz dos cabelos dourados deu cubos de açúcar para Héspero. Héspero gosta do menino de cabelos dourados. 
- Ele fala dele mesmo na terceira pessoa, e isso é muito legal nos bichos. Harry, você tem um cubo de açúcar?
- Harry?
- Sim, oras. - Meredith riu. - Seu nome é Harry Keaton.
- Meu nome definitivamente não é Harry Keaton.
Meredith se virou. Aquele não era Harry Keaton. Aquele era Eric Houser, o menino que ela queria espancar há um tempo. Ficou boquiaberta, estava esperando qualquer outra pessoa. Ela teve uma atração momentânea por Will Solace, até descobrir que ele era gay e que ela não tinha nenhuma chance. Depois, teve um crush em Harry Keaton, um dos meninos mais velhos do chalé de Apolo.
- Você? - ela perguntou assustada.
- Quem você esperava, Quíron? - ele perguntou sendo sarcástico.
- Não, eu esperava Harry Keaton. - ela disse se virando para acariciar Héspero mais uma vez.
- Imagino que não saiba, mas, Harry tem namorada. - ele riu alto o suficiente para que Héspero batesse os cascos. - Ashley Murphy, filha de Hefesto. 
- Você fica fofocando sobre quem namora quem no seu chalé? - ela perguntou.
- Harry fala muito alto quando estou tentando dormir. - ele disse com raiva. - Não tenho mais meus fones de ouvido e nem meu celular, então não tenho mais como ouvir músicas. Enfim, o que ele disse?
- Ele quem? - Meredith perguntou confusa.
- Héspero. - ele chegou perto do animal. - Filhos de Poseidon falam com cavalos. Ele deve ter dito alguma coisa.
Diga que Héspero gosta do menino de cabelos dourados. 
- O cavalo está me dando ordens de te dizer que ele gosta de você.
Eric sorriu e acariciou o cavalo. 
- Você tem um cubo de açúcar? - ela perguntou e o menino a entregou um dos que tinha. - Obrigada.
   A menina dos olhos azuis deu um cubo de açúcar para Héspero. Héspero gosta da menina dos olhos azuis. 
  A morena riu com os pensamentos do animal. Ah, esses animais excêntricos de hoje em dia. Quando se deu conta de que outro bicho também estava na sala, deu pulo de susto ao ver o animal com a penugem mais dourada que havia visto. Isto, obviamente, levando em consideração que animais com penugem dourada são extremamente comuns. 
- Ele é seu? - ela perguntou enquanto Eric acariciava o animal.
- Depende de como você considera os termos possessivos. - ele deu de ombros. - O nome dela é Aldara.
- Um presente alado. - Meredith traduziu.
- É isso aí. - ele disse. - Queria te oferecer um passeio de pégaso em desculpas pelo o que aconteceu naquela noite no Argo II.
- Não me lembre disso. - a morena pediu.
- Desculpe, eu achei que pudesse ser um monstro.
- Deveria ter olhado antes de me dar um murro no rosto! - a menina berrou.
- Ok! Desculpe! - ele elevou o tom de voz. - Então, aceita ou não o passeio?
- Não sei... Acho que não é certo deixarmos o Acampamento. Quíron me alertou sobre os perigos fora da barreira mágica. 
- E não temos permissão. - Eric cruzou os braços e se encostou na parede.
- Você vai se conformar com essa facilidade? - ela perguntou indignada. - Primeiro o murro e agora vai desistir desse jeito? Quer saber, acho que você se conforma com as regras impostas muito facilmente.
- Ah, se você soubesse. - ele riu de uma piada interna. - Não. Dentre todas as pessoas no mundo sou eu quem desrespeita todas as regras.
- Então costumam te considerar um rebelde? - ela perguntou.
- Sim. - ele sorriu dando de ombros.
- Aposto que dizem que você é um daqueles rebeldes sem causa. Cara, você bateu em uma mulher. Isso é rebeldia sem causa.
Os dois começaram a rir alto.
  Enquanto Meredith ria parecendo uma foca, ela observou cada detalhe no rosto do menino. Não era algo que ela fazia com frequência. Seus cabelos eram dourados como ouro, lisos, tinha uma pele levemente bronzeada e olhos de cor azul céu com pontos em castanho mel ao redor da pupila. Diferentemente de Aria, Eric era alto. Era um contraste com todos os filhos de Apolo que tinha visto até agora. Harry Keaton era uma formiga do lado de Eric Houser.
Quando a crise de risos passou para ambos, Meredith encarou suas unhas pintadas com um azul tampa-de-caneta. Sempre gostara da cor azul.
- Está pensando em quê? - Eric perguntou. - Aposto em como pensa sobre insultar Annabeth Chase.
- Na verdade eu estou pensando no hambúrguer de cheddar que eu vou comer no almoço. 
Eles começaram a rir novamente e os cavalos começaram a relinchar.
- Meredith. - ele a chamou. - Isso é um momento romântico? 
A garota ponderou. Conseguiu sentir a inocência da pergunta de Eric, por isso não o socou.
- Eu não sei. - ela deu de ombros. - Você acha que é?
- Bem, o que eu sei sobre momentos românticos é que eles geralmente envolvem beijos. - ele a olhou de relance. - E nós não estamos nos beijando.
- E nem vamos. - a garota se levantou, deixando Eric sozinho com Héspero e Aldara.


  Não correu rápido por dois motivos. Número um: ela não gostava de correr. Número dois: sua forma de correr era muito estranha. Em poucos segundos Eric conseguiu a alcançar. Ele corria rápido.
- Ei, pare com isso. Eu não vou te beijar. Não te acho bonita o suficiente para isso. - ele disse. - Então, meu pedido de desculpas ainda está valendo. Que tal sair um pouco desse confinamento?
Ela pensou em como aquilo era errado e como ela se daria mal. Pensou no olhar repreensivo de Quíron e no que ele diria quando retornassem. O centauro botava expectativas em Percy, e, infelizmente, transferiu um pouco das suas expectativas para ela também.
- Tudo bem, vamos logo antes que eu mude de ideia. - a morena disse de uma vez.
- Ótimo. Sairemos agora. - ele disse assobiando.
- Agora?! - Mel perguntou hesitante.
- Sim. Qualquer instante desperdiçado é um desrespeito com o universo. 
- Você sabe que eles vão nos dedurar, seu ridículo! - ela o estapeou no braço. - Eric, você está ao menos me escutando?!
- Astrapi, pare com isso. - ele implorou. - A não ser que eu e o cavalo brilhemos no sol, não há como eles verem. Aldara sabe como ser discreta.
Quando Meredith subiu no pégaso que relinchava contente, ela teve a certeza que se meteria em mais uma encrenca. Já não bastava ter um irmão que a ignorava, tinha que copilar com coisas que a meteriam em problemas. Antes que ela pudesse tentar descer do animal, este decolou com rapidez extrema. Ela, involuntariamente, agarrou-se as costas de seu amigo - se é que eles eram amigos - e gritou. O vento batia em seus cabelos pretos como um furacão e a camisa do Acampamento estava colada em seu corpo devido as rajadas de vento. Estava de olhos fechados, mas podia sentir as asas do pégaso dourado baterem fortemente nas correntes de ar, quebrando-as como se fossem nachos. Enquanto ela continuava gritando e com o rosto pressionado nas costas de Eric, este gargalhava na sua frente.
- Pelos Deuses, Astrapi! - ele começou. Abra esses olhos azuis e veja aonde você está.
- Por que eu deveria abrir meus olhos? Se esqueceu que você me arrastou para esse lugar? - ela perguntou com a voz abafada.
- Sei que você vai gostar. É impossível não gostar! - ele falou alto. - Seu lugar é o mar mas o céu pode ser bem agradável.
   De vagar ela desencostou o rosto das costas de Eric e abriu os olhos, tendo a vista de uma imensidão azul, como o mar, só que com manchas brancas: nuvens. Soltou o ar rapidamente por causa da emoção que sentia ao olhar como o mundo era belo daquela altura. Olhou para baixo e viu o chão de Long Island. 
- Eu disse que você ia gostar! - ele disse confiante.
- Eu não disse que gostei. - ela respondeu. - Não tem como você ter certeza que eu gostei.
Ele não olhou para trás, mas seus ombros subiram. Era a ombrada do desafio eminente.
- Bem, a sua respiração mudou totalmente. Antes, ela estava rápida e descontrolada, agora, está calma e serena. - como se lesse a mente dela, ele respondeu a próxima pergunta com outra pergunta. - Esqueceu que está apoiada nas minhas costas?
Ela sentiu suas bochechas ficarem vermelhas como as de Dionísio, uma coisa que acontecia direto quando ela ria muito ou ficava envergonhada. Ela afastou um pouco o corpo do dele e observou a paisagem. Após alguns minutos, desceram em uma cidade que era cheia de prédios, e muitas, muitas, muitas pessoas. Era Nova York, ela reconheceu. O Empire State Building brilhava quando a luz do sol refletia em sua estrutura. Estavam rodeados de pessoas que pareciam não notar que haviam dois adolescentes sentados em um animal mitológico. A névoa, lembrou. Por isso eles não vêem Aldara. Provavelmente os humanos estariam vendo dois adolescentes saírem de dentro de um táxi ou ônibus, ou, na pior das hipóteses, de um jatinho particular. Desceram juntos do animal, que levantou voo assim que se estabeleceram no chão. Começaram a andar pela multidão a dentro, e não sabiam para aonde estavam indo, ao menos Mel não sabia. Ela só estava seguindo o garoto.
- Onde nós estamos indo? - ela perguntou.
- Você já foi em um museu de cera? - ele perguntou. - Eu sei que você vem de Los Angeles e que lá tem absolutamente tudo, mas não custa perguntar.
- Não, nunca fui. - ela disse, desconfiando. - Me responde.
Depois de andar muito, Mel não estava nem mais pensando aonde estava pisando, e acabou por dar um encontrão em Eric, que a segurou pelos ombros e a virou para uma grande construção. Ela ficou sem ar.
- Bem vinda ao Madam Tussauds de Nova York! - ele exclamou abrindo os braços em frente a construção.
Mel não o respondeu, pois já estava correndo até a entrada e comprando dois bilhetes. Quando finalmente conseguiram entrar, a Meredith que não corria havia dado lugar a uma Meredith eufórica que corria por todos os lados observando seus artistas favoritos com louvor. A cada artista que passava, a menina entrava em um estado de quase-pânico e lamentava por não ter mais seu celular. Enquanto ela observava a estátua de Luís XIV, Eric chamou a menina para contemplar junto dele a estátua da Rainha Elizabeth II. Tinham poucas pessoas naquela parte do museu e todas pareciam estar mais interessadas na estátua de Barack Obama do que na Rainha. 
- Preciso tirar alguma memória dessa visita de última hora a Nova York. - o menino disse frustrado. - Lá em Detroit a gente não tem essas coisas. Vou apertar a mão da Rainha, é isso.
- Não seja burro. É proibido encostar nas estátuas, quanto mais apertar as mãos delas! - Meredith se fingiu de preocupada. 
- Ah, deixe essas regras de lado! Já quebramos no mínimo uma dúzia delas hoje e podemos quebrar mais uma. É feita de cera endurecida, seu eu apertar a mão ela não vai se quebrar. 
    E assim ele fez, discretamente chegando perto da estátua e dando um "toca aí" de leve. Assim que se afastou, o braço inteiro caiu no chão e se espatifou em milhões de pedaços. A menina ficou apavorada quando seguranças vieram correndo na direção deles. Eric ainda encarava com pânico a bosta que tinha feito, teve de ser puxado para que corresse rápido em direção a onde tinham descido de Aldara. Saíram correndo do museu, se espremendo por entre milhares de pessoas apressadas - como eles - . Eric assobiou e Aldara desceu do céu como um relâmpago, e eles subiram no pégaso e decolaram imediatamente.
- Não foi minha melhor ideia, admito. - Eric lamentou. - Mas, ao menos, conseguimos escapar. 
- Eu sinto falta da época em que minha única preocupação era o clima da Califórnia. - Meredith choramingou. - Para onde vamos agora? Quem sabe o Acampamento Meio-Sangue?
- É muito cedo para voltar para o Acampamento! Pensei em visitarmos um ponto turístico que em geral atrai muita gente.
- A colina Meio-Sangue? - ela tentou mais uma vez.
- Não, Astrapi. - ele revirou os olhos. - O Grand Canyon. 
- Oh, meus Deuses, Houser! - ela deu socos em suas costas. - Se nós nos metermos em mais encrenca do que já vamos nos meter por sua causa eu juro que vou... 
- Se você não calar a boca por bem eu calo por mal. - ele disse brincalhão.
Milhões de coisas passaram pela cabeça dela, mas ela não disse nada. Tentou arranjar algo para fazer enquanto não chegavam no local. Estariam perto de Las Vegas, que fica perto de sua cidade, Los Angeles. Como estaria Angellica, sua mãe? Ela faria uma ligação, ou, ao menos tentaria... Em meio a seus pensamentos ela adormeceu encostada nas costas de Eric. 
     Depois de um longo período de tempo, ela foi acordada por mãos masculinas que a sacudiam freneticamente. Abriu os olhos de vagar e deu de cara com o rosto de Eric, seus cabelos dourados e olhos azuis, que a encaravam. Ela se levantou, repreendendo todos os tipos de pensamento que se resumiam a: "Como ele é lindo." O Grand Canyon era enorme e maravilhoso. Ela se dirigiu até as grades de ferro e se apoiou nelas, respirando fundo e sentindo o cheio quase imperceptível do Rio Colorado. Uma das poucas vantagens de se ser filha de Poseidon.
         Passearam por toda a área aberta para exposição do cânion, parando depois para tomar um sorvete. Mel escolhera de amora, que fazia uma coloração roxo-azulada se manifestar. Já Eric pedira um sorvete sabor chocolate. Quando parou para observar, já era por-do-sol.
- Já é quase noite. - ela disse cutucando-o. - Deveríamos voltar para o Acampamento. Não quero que o Quíron note que saímos.
 - É, será bem ruim se ele notar. - ele subiu em Aldara. - Sobe aqui.
         A viagem de volta para o Acampamento foi muito diferente da primeira viagem, que foi raivosa e destruidora, mas agora se tornara calma e pacífica, enfeitada com tons de amarelo, laranja e rosa as nuvens. O chalé de Apolo havia recebido Eric com uma grande festa e muitas comidas deliciosas, o que ele achou desnecessário, e o seu chalé composto por apenas uma pessoa havia a ignorado e desprezado como se fosse uma mancha de café no sofá. Definitivamente os seus 15 anos não eram o ponto alto da sua vida. Quando chegaram no Acampamento já era noite. Furtivamente, aparentemente não notados, colocaram Aldara de volta no Estábulo e foram os dois para seus respectivos chalés. Porém, antes que pudessem concretizar seus objetivos, foram abordados pelas duas pessoas que menos queriam encontrar: Quíron e Annabeth.
- Não disse, Quíron? Estavam fazendo baderna. - dissse Annabeth, dando ênfase na palavra baderna.
- É proíbido deixar o Acampamento sem permissão, senhorita Astrapi e senhor Houser. - o centauro falou em um timbre forte.
Era o fim de Meredith. Se não tinha sido expulsa antes seria agora.
- Não saímos do Acampamento, Quíron. Isso é um engano. - Eric tentou defendê-los.
- Se não saíram, aonde estavam? 
- No Estábulo, com Héspero e Aldara. - o garoto mentiu novamente.
No momento em que Quíron estava parecendo se convencer das palavras que Eric tinha dito, Annabeth tirou um notebook de dentro de uma bolsinha. Abriu em um site qualquer e virou-o na direção dos dois, para que não somente Quíron visse seu conteúdo, mas eles também.
- "Dupla de adolescentes destrói o braço esquerdo da estátua da Rainha Elizabeth no Madam Tussauds de Nova York." - leu. - Essa notícia é de hoje.
- Como explicam isso?
- Não fomos nós! - Meredith mentiu.
Annabeth teclou mais algumas coisas em seu notebook, virando em seguida com a foto de dois adolescentes: uma menina de cabelos pretos e um menino de cabelos dourados, na fuga do museu.
- Eu te disse que esses semideuses novos não saberiam se comportar mediante a situação, Quíron. - Annabeth cruzou os braços após guardar seu notebook.
- O que sugere que eu os ofereça como punição pelo o que fizeram, Annie? - Quíron perguntou.
- Mande-os secar os pratos de hoje com os outros.
- Que assim seja.
       Derrotada, Meredith passou na frente dos dois, recebendo um olhar superior de Annabeth. Eu poderia arrancar fio por fio desses cabelos loiros, pensou. Eric vinha logo atrás, tentando achar as palavras certas para dizer. O problema era que não haviam palavras certas para serem ditas. Não haviam simplesmente palavras para serem ditas. 
- Olha, me desculpe... - sua fala foi interrompida pela mão esquerda da garota.
- Não diga nada, por favor, senão eu vou te espancar como eu tinha prometido. - ela disse segurando a raiva.
Ela sabia que a culpa também era dela, tinha concordado em sair. E isso só a dava mais ódio. 
Se dirigiram a cozinha do Acampamento, dando de cara com pilhas enormes de pratos a serem secos e com mais quatro meninas. A primeira era oriental e usava pulseiras brilhantes e acessórios desnecessários. A segunda usava os cabelos negros presos em um rabo de cavalo impecável e uma maquiagem terrivelmente rosa. A terceira tinha o cabelo com mechas loiras e usava um short colorido pequeno demais. E a última era normal, com cabelos loiros claros e olhos cinzentos, cobertos por óculos de grau. Quando Meredith ficou ao lado da última menina, Annabeth entrou pela porta segurando uma prancheta que a morena definiu como ridícula.
- Drew Tanaka, filha de Afrodite...
- Estou aqui, Annie! - a menina oriental respondeu com deboche.
- Isabella Stendhal, filha de Hécate...
- Aqui. - a menina de rosa respondeu e Meredith a reconheceu como sendo uma das meias-irmãs que Michelle havia contado sobre.
- Neasty Calder, filha de Íris... 
- Eu mesma! - a menina colorida bizarra respondeu com uma animação desnecessária.
- Sophia Hiregarth, filha de Atena... Minha irmã, eca!
- Estou aqui, Annabeth. E sim, sou sua irmã. - a menina dos cabelos castanhos claros disse.
Mel a achou divertida.
- Erick Houser, filho de Apolo...
- Hum. - Erick respondeu com um ruído.
- Meredith Astropi, filha de Poseidon...
- Eu. - Meredith disse sem nenhum humor.
- Muito bem! Podem começar a secar os pratos. Não se animem muito por não ter que lavá-los, hoje o pessoal comeu como porcos. - Annabeth bateu as mãos em expectativa. - E, talvez, apenas talvez, se forem rápidos, consigam chegar para a fogueira.
E então a loira saiu pela porta, seguida de vaias e de sinais obscenos. Mel se contentou apenas em revirar os olhos, com certeza ela não queria mais problemas para o seu lado, e Annabeth tinha toda a cara (e personalidade) de quem adoraria arranjar mais um problema. Começou, então, pela primeira fileira, a mais alta de todas, a secar um prato de cada vez. E como ela secou pratos, contou pelo menos 150, e ainda haviam mais 6 fileiras. Drew e Isabella discutiam sobre alguma coisa haver com cor de cabelo, algo que Mel realmente achava mais torturante do que secar uns 400 pratos. 
- Olha aqui, Drew, só porque você é filha da deusa da beleza, não quer dizer que você tenha o melhor cabelo! - Isabella esbravejava.
- É claro que eu tenho o melhor cabelo, sou filha da deusa da beleza! Eu sou a mais bonita em tudo! - Drew retrucou balançando o seu cabelo super liso enorme e suas 300 pulseiras.
- Não por muito tempo, ma chérie! - Isabella sacudiu seu rabo de cavalo quilométrico.
- Vai fazer o que, Stendhal? - Drew debochou. - Me jogar um feitiço?
- É, talvez eu te transforme num sapo! 
- PELO AMOR DOS DEUSES! - Sophia berrou repentinamente. - Podemos por favor terminar o nosso serviço? Quanto mais cedo acabarmos, mais cedo deixaremos de nos ver!
- Cala a boca, sua idiota! - disseram em uníssono. - Quem você pensa que é para nos dirigir a palavra?
- Que cabelo mal cuidado, essas unhas roídas e essa camiseta de uma marca super out! - Isabella foi dramática.
- Não é uma marca de roupas, sua retardada! São os Beatles, nunca ouviu falar? - Meredith entrou na confusão.
Eric tentou trazê-la de volta para o seu dever, mas, como ela já estava envolvida na situação, apenas se soltou da mão dele e continuou a discutir.
- E quem é você? - Drew perguntou olhando a morena com desprezo.
- Meredith Astrapi, chalé 3! - ela disse perdendo toda a sua paciência. - Quem diabos é você?
- Eu sou Drew Tanaka, meu bem! - sacudiu o cabelo novamente. - E eu não vou deixar uma babaca do chalé 3 ousar falar comigo!
Não adiantava mais pedir para que Meredith se acalmasse. Ela simplesmente fechou os olhos, apertou os dedos e ouviu um jorrão e gritos femininos. Quando abriu os olhos, viu uma imensidão de água, um bebedouro explodido e Drew, Isabella e Neasty todas molhadas. Elas gritaram, espernearam, lançaram pragas e finalmente foram embora. Sua primeira proeza como filha de Poseidon foi explodir um bebedouro, era uma coisa que ela sentiu vergonha, mas ao mesmo tempo se sentiu orgulhosa.
     Com a saída do trio, as coisas correram bem melhor.
- Obrigada por me defender. - Sophia disse.
- Eu fiz o que era certo. Você não pode deixar elas falarem com você desse jeito. - Mel respondeu. - Tem que reagir.
- Eu sei, mas mesmo assim, muito obrigada por jogar 10 litros de água no rosto delas. - Sophia sorriu alegre.
- Foi um prazer indescritível.
Logo depois, Sophia deixou a cozinha, e Meredith insistiu para que Eric fosse se divertir na fogueira. Ela ficou sozinha na cozinha, mas quando virou, deu de cara com seu irmão, Percy.
- Você que explodiu o bebedouro? - Percy perguntou curioso.
- Sim. - ela respondeu sem interesse. - Por que está interessado?
- Nada, eu... Eu explodi umas privadas na minha primeira proeza aquática.
- Interessante. - ela foi irônica.
Um silêncio extremamente constrangedor se instalou entre eles, e Mel ainda não tinha conseguido pensar em um motivo para ele ter aparecido e para estar falando com ela. Percy ameaçou sair do cômodo, mas voltou com uma expressão de pena. Pena de si mesmo.
- Eu só queria te pedir desculpas. - ele disse olhando para baixo. - Por ter te tratado mal e te ignorado hoje de manhã. Eu não conseguia acreditar que eu tinha uma irmã e o pai nunca tenha mencionado nada... Não é nada pessoal.
- Tudo bem, Jackson. - ela sorriu. - Se tivesse me dito teria evitado tudo isso. Mas, afinal, quem sou eu para julgar alguém por atitudes impulsivas? Suas desculpas estão aceitas.
- Vamos virar grandes amigos com o tempo. Irmãos de verdade. - ele sugeriu e ele concordou. - Só me desculpe por hoje.
- Não tem problema, sério! Só não me ignore novamente se não quiser levar socões. - ela disse e eles riram baixinho. - Você vem para a fogueira?
- A fogueira já terminou há um tempão. - Percy disse confuso.
Meredith sentiu uma contração em seu estômago: a fome. Também veio misturada com o nervosismo, raiva e todos os outros sentimentos negativos. Ela não poderia ter perdido justamente a fogueira, a melhor parte do dia no Acampamento. Colocou as mãos no rosto e as passou pelo cabelo.
- Que bosta! - exclamou. - Perdi o jantar. Vou ter que dormir morrendo de fome.
- Os filhos de Hécate pode arranjar comida. Eles fazem qualquer coisa aparecer. - Percy sugeriu. - Você é amiga da Michelle Overcast, não é? Ela pode arranjar comida para você.
- Obrigada! - ela sorriu abertamente. Vou passar no chalé, você vem?
- Vou.
Os dois foram juntos para o chalé, conversaram um pouco, mas Percy quis dormir. Ela, furtivamente, pegou o perfume de cachorro que estava de baixo da cama de Percy e espirrou o odor por todo o seu corpo. Coberta pelo cheiro de cachorro molhado, as harpias não a detectariam, e assim, ela poderia sair sem ser devorada. Abriu a porta com delicadeza e andou na ponta dos pés até o chalé 20. O chalé era cheio de pedras e de símbolos. Bateu com a batida secreta das duas, mas ninguém respondeu, então bateu de novo, mas não houve resposta. Decidida a falar com a melhor amiga, ela entrou no chalé, onde todos dormiam. Mal conseguiu dar um passo, pois escorregou no chão imediatamente, fazendo com que a madeira rangisse muito alto. Fechou os olhos em dor, e quando abriu, estava cercada por filhos de Hécate, que a encaravam. Exceto Michelle. Ela se levantou e desamarrotou a roupa, ainda sendo encarada por vários olhos coloridos. 
- A Michelle está aqui? - perguntou.
- Não. - um menino que Mel havia reconhecido como Anthony respondeu.
- Onde ela foi?
- Não sabemos. Ela sumiu. - Anthony disse.
- Como assim sumiu?! 
- Também não sabemos. Achamos que você saberia. - completou.
- Mas eu não sei. - deixou vago no ar.
- Então Michelle Overcast realmente sumiu. - Anthony falou com a voz mais grossa que o normal.
E o silêncio se instalou no chalé 20.