Capítulo 3- Nada para comemorar.
MICHELLE
Michelle foi acordada por Leo, que a encarava assustado.
- Você está bem? - Leo perguntou.
- O que aconteceu? Tenho certeza que dormi no mastro... Por que estou no quarto?
- Tive que te tirar do mastro. O Sol estava castigando e Nico me pediu para te tirar de lá, e enquanto eu a carregava - ele riu em nervosismo, - Percebi que estava com uma leve febre. Quanto a febre, não se preocupe, já passou.
- Por quanto tempo dormi?
- Por quanto tempo dormi?
- Provavelmente umas 70 horas. - ele contou nos dedos.
- Mas que diabos?! Eu dormi por quase três dias?!
- Mas que diabos?! Eu dormi por quase três dias?!
- Só brincando. - ele riu. - Dormiu por aproximadamente 15 horas.
- Ah, sim. - ela concordou.
- Estava tendo um pesadelo, não é?
- Sim. - cerrou os olhos. - Como sabe?
- Sendo sincero, você fala dormindo.
- Obrigada por me acordar e tudo mais. - ela tossiu seco. - Mas agora, saia, preciso tomar meu banho.
- Já estou saindo. - ele saiu e bateu a porta.
- Obrigada por me acordar e tudo mais. - ela tossiu seco. - Mas agora, saia, preciso tomar meu banho.
- Já estou saindo. - ele saiu e bateu a porta.
Enquanto tomava banho pensou nas coisas que o homem de terno azul disse. Será que ela era capaz de tanta maldade para ajudá-lo a destruir tudo que ela conhecia? Poderia ela confiar naquele homem? Essas perguntas martelavam na sua cabeça, mas foi tirada de seus devaneios por batidas na porta. No mesmo instante, levantou-se da banheira, enxugou-se e vestiu uma roupa: uma blusa roxa, calça jeans escura, coturno e uma jaqueta jeans. Ao abrir a porta deu de cara com Nico, que não estava com a melhor expressão do mundo.
- Não vai entrar? - perguntou, mas ele permaneceu em seu lugar. - Entendo isso como um não. - tentou fechar a porta mas o pé dele a impediu.
- Sabe porque estou aqui, Michelle.
- Tudo o que eu fiz foi trocar de lugar contigo.
- Não pode fazer tudo o que quer! Não é dessa forma com os outros e não será com você também!
- Pare! Dou a minha palavra de que dormirei aqui nesse quarto horrível de agora em diante.
- Não pode fazer tudo o que quer! Não é dessa forma com os outros e não será com você também!
- Pare! Dou a minha palavra de que dormirei aqui nesse quarto horrível de agora em diante.
- Jure pelo Rio Estige!
- Juro. - um raio cortou o céu.
- Não pode mais voltar atrás.
- Parece uma criança mimada, sabia?
- Isso é muito irônico saindo da sua boca.
- Ah, pare de palhaçada! Entre, quero conversar e você vai servir.
Nico entrou e se sentou no sofá, enquanto a ruiva se jogou na cama. Se sentia confortável para conversar ao menos com ele.
- Então ficou com raiva de mim?
- Sim.
- Me explique então o seu pedido para me retirarem do mastro.
- Eu queria meu mastro de volta.
- Eu queria meu mastro de volta.
- Admita que estava preocupado comigo.
- Só queria ficar no mastro. Só isso.
- Só queria ficar no mastro. Só isso.
- Sei. Gostou do quarto?
- Não muito.
- Idem.
- Tenho uma surpresa para uma amiga.
- Essa amiga sou eu. Olha, pode até ter dito que me considera uma amiga e blá blá blá, mas você tentou me matar e eu quase te matei. Lembre-se que eu não disse nada.
- Você leu minha mente e sabe da minha vida por completo.
- Bem, acho que isso é válido.
- Você ao menos não me vê e me olha como se eu fosse algo de ruim.
- Eu gosto de ser diferente.
- Eu gosto de ser diferente.
Nico ia dizer algo quando o barco tremeu, e ele saiu correndo para fora do quarto. Ao chegar no convés percebeu que o barco despencava do céu.
- O que está acontecendo? - ela perguntou para Nico.
- Algum monstro atacou o barco. - ele alertou.
- Que monstro?
- Não sabemos. O ataque foi rápido e destruiu o casco.
- Ah, sim. - murmurou.
- Ah, sim. - murmurou.
- Volte para o seu quarto.
- O que farei lá?
- Nada!
- Que saco! - saiu do convés e voltou para seu quarto.
Os dois dias seguintes foram a mesma bosta: todos ficavam em seus quartos, não interagiam, saiam para fazer as refeições, voltavam para os quartos e de noite algum monstro atacava e destruía uma parte do barco.
Ainda faltava um dia para chegar no Acampamento e Michelle estava extremamente entediada. Foi até a cabine do capitão e se deparou com Leo.
- Já está tão dependente de mim?
- Cale a boca, inútil!
- Claro, flor de laranjeira.
- Inútil. - murmurou enquanto se jogava no sofá.
- Animada?
- Por que estaria animada?
- Porque amanhã chegaremos no Acampamento. Seu novo lar.
- Estou mais pra nervosa do que para animada com esse tal novo lar.
Leo apertou um dos muitos botões e se sentou junto a Michelle.
- Por que está nervosa?
- Porque sim! E se eu não me der bem por lá?
- Você é forte. Já está feita por lá. Ao menos os filhos de Ares não vão a incomodar.
- Duvido muito.
- Se for do seu agrado podemos fazer um acordo.
- Depende.
- Eu te protejo...
- Não preciso da sua proteção e da de ninguém!
- Confie em mim. Estou lá há mais tempo que você e sei que lá tem pessoas que não vão deixar sua chegada passar despercebida.
Michelle pensou no assunto e chegou a conclusão que aquele trato era vantajoso, afinal.
- O que vai querer em troca?
- Depois eu penso nisso.
- Fala agora senão nada feito!
- Quem perde é você.
- Tudo bem! - disse suspirando. - Eu aceito.
- Pode crer que o meu preço não é nada que você não deseje. - disse se aproximando.
- Leo, sai!
- Vejo em seu olhar que está apaixonada por mim como leões são apaixonados por antílopes.
- Isso foi extremamente ridículo.
- Sei que me ama e não precisa esconder isso de mim.
Nico entrou no cômodo e percebeu que Leo e Michelle estavam sozinhos na cabine.
- Interrompo algo? - perguntou. - Posso sair se preferirem.
- Não interrompe nada. - deu ênfase na palavra "nada". - Pode ficar se quiser.
- Não deveria estar no mastro? - Leo perguntou desconfiado.
- Tenho motivos para não estar lá.
- E por acaso um desses motivos é ruivo e tem olhos dourados, colega? - Leo perguntou brincalhão.
- Não deveria estar dirigindo esse... Troço?
- Está no automático. - disse indignado. - É um navio. Não um... Troço.
- Você fala como se isso fosse totalmente seguro.
- Isso é seguro.
- Você sabe que quase tudo que constrói jamais é totalmente seguro.
- Pare de mentir!
Michelle não estava mais aguentando aquela discussão.
A garota se levantou num salto.
- Não vou ficar aqui para escutar discussão!
Ela foi embora e Leo a seguiu.
- Quero ficar sozinha!
- Então vamos ficar sozinhos juntos.
- Pelo amor dos deuses, você é insuportável.
- Só vim pedir desculpas pela discussão.
- Desculpas aceitas. - passou a mão nas mechas ruivas. - Vou dormir. Me acorde quando for a hora do jantar.
- Ok.
- Não foi um pedido.
Michelle foi para seu quarto e nem sequer trocou de roupa, simplesmente se jogou na cama e logo adormeceu.
Estava na frente de uma casa. Era noite e um vulto a perseguia.
- Quem é você?
- Já se esqueceu de mim? Aposto que seu pai não esqueceria de mim tão fácil. - sua voz era como um sibilo, um tanto feminina.
- Eu conheço essa voz.
- Pelo visto não fiz um bom trabalho quando forcei você e seu pai a saírem de Los Angeles, minha irmã.
Michelle ficou quieta.
- Eu sempre soube. Desde a primeira vez que a vi eu soube que era a escolhida.
- O que quer dizer com isso?
- Seus cabelos são vermelhos. Foi amaldiçoada. Algo como um castigo bem poderoso.
- Pelo o que eu fui castigada?
- Deixarei que descubra sozinha. Entre na casa e pegue o que seu pai roubou de ti. - a incentivou.
Em um acesso de coragem Michelle adentrou na casa. A sala seria muito aconchegante se não estivesse queimada. Em cima da lareira haviam porta retratos queimados, com exceção de um. Ela o pegou e examinou a foto. Só haviam três pessoas: um homem alto, com cabelos escuros e olhos negros, que vestia uma calça jeans e uma blusa branca e uma mulher de longos cabelos castanhos e olhos verdes. A mulher era bem bonita e usava um simples vestido verde água. No meio do casal, havia uma garotinha de cabelos ruivos, olhos dourados e que usava um vestidinho vermelho de babados. Michelle se assustou ao ver na foto pessoas que conhecia. Eram ela, aos nove anos, seu pai e sua madrasta, Lâmia. Memórias apareceram em sua mente, memórias essas que se encontravam adormecidas na mente confusa de Michelle.
- Se você quiser eu posso te ajudar a entrar nessas memórias e lembrar. - a voz sussurrante disse.
Ainda encarando sua versão mais nova, Michelle tomou uma decisão.
- Me ajude. Quero lembrar de tudo que puder.
A casa se dissolveu. Quando abriu os olhos novamente viu a mesma casa, bem mais nova e limpa. Duas pessoas estavam na sala: ela, uma versão mais nova, que brincava, e Lâmia, com um sorriso diabólico.
Lâmia, em um segundo, agarrou a mão da criança Michelle e a levou para um quarto no segundo andar. O pai de Michelle também estava lá. Lâmia entrou e trancou a porta com todos dentro do cômodo. Michelle olhou para baixo e viu que seus pés haviam desaparecido, se transformado em uma nuvem cinza e que ela agora flutuava como uma pena.
- Foi mais fácil do que imaginei enganar vocês! Até nunca mais, criança demoníaca! - Lâmia rugiu para a menininha. - Incantare: Templum Incendere! - ela gritou e a casa explodiu em chamas.
Lâmia desapareceu.
O pai de Michelle tentava arrombar a janela mas esta não cedia e o atrito começava a machucar o ombro dele. Ficava a cada segundo mais quente e Michelle não demonstrava o quão fraca estava.
- Querida. - chamou seu pai. - Sabe o que tem que fazer.
- Não, papai! Eu não sei o que tenho que fazer! - ela gritou.
- Apenas diga o que quer que aconteça agora.
- Não funciona, papai!
- Querida, se concentre, senão todos nós vamos morrer.
- Incantare: Tutus Semita! - ela disse determinada.
O fogo abriu uma passagem, permitindo que pai e filha saíssem do quarto em chamas.
- A porta está trancada. Querida, vá na escrivaninha e pegue na terceira gaveta a chave reserva.
Michelle assim o fez. Charles abriu a porta com as mãos tremendo e pegou a filha no colo, avançando nas chamas que se estendiam pelo corredor que parecia não ter fim. Sangue escorria da sobrancelha de Charles e o nariz da filha sangrava.
- Suficiente! Não desejo ver mais nada! - Michelle berrou e a cena se desfez, voltando a casa queimada. - Lâmia, sua víbora, apareça de uma vez!
Lâmia saiu das sombras com o mesmo sorriso diabólico da memória e exatamente igual a foto que antes Michelle segurava.
- Olá, Michelle. Aqueles sim foram os verdadeiros anos dourados.
- Você se casou com meu pai a força, me tratou como lixo a minha vida inteira e tentou nos matar! Isso são seus anos dourados?! - ela perguntou exalando fúria.
- Oh, pelo amor dos deuses, pare de gritar! Tenho certeza que suas habilidades vão além de gritar como se fossemos todos surdos e caquéticos. - Lâmia reclamou. - Estou bem aqui, logo estaremos lutando no mesmo lado e não parece maravilhoso? Saber que não irá morrer pelas minhas mãos?
- Jamais lutarei ao lado de uma cobra peçonhenta como você!
- Jamais é um tempo enorme, não acha?
Michelle foi acordada por Leo, que a cutucava, insistente.
- Acorda! Hora do jantar!
- Já acordei, pode parar! - ele não fez menção de parar.
Deu um tapa em sua mão.
- Ai! - ele gritou.
- Não mecha comigo.
- Vai precisar de muito mais para que eu não mecha com você, docinho. - ele disse rindo. - Não acha que dormir de roupa normal é meio desconfortável?
- E daí? - perguntou ácida.
- Achei engraçado o fato, apenas.
- Dane-se! Saia logo do meu quarto! - foi empurrando o garoto.
- Já estou indo! Afinal, quem vai pilotar esse troço senão eu?
- Eu não ligo, só saia de uma vez!
Tomou um banho e vestiu uma calça jeans e uma blusa com estampa étnica. Encarou a enorme cicatriz que tinha no braço. Seu pai costumava contar que ela adquirira aquela cicatriz numa das muitas vezes que fugira de casa, mas, agora, depois do sonho, lembrou num piscar de olhos como a ganhou.
Flashback on
Tinha acabado de sair de casa e pensava no como aquilo não deveria ter acontecido.
- Ah, pão de mel, não era pra você sair disso viva. - Lâmia disse com sua voz rouca tentando ser gentil.
Com uma rapidez extraordinária, a mulher agarrou Michelle pelo pescoço.
- Não está sendo uma boa menininha, que feio!
- Me largue, sua velha feia! - a menina gritava a ofendendo.
- Você vai se arrepender de ter dito isso, pirralha infer... - não pode continuar com as ofensas, pois Michelle mordeu um dos braços que a segurava.
Lâmia urrou de dor. E, sem perder tempo, Charles atravessou o monstro com uma espada afiada.
Flashback off
Saiu de seu quarto e foi na direção de Meredith, que comia sozinha num canto, encarando Eric, enquanto esfaqueava seu bife com força. Preferiu não interromper a situação porque não queria acabar com outro corte no braço. Andou até o mastro, mas Nico estava lá, dormindo. Não o acordaria. Andou arrastando os pés até a sala de controle, e Leo estava lá, ao contrário dos outros, não fazia nada com grande emoção.
- Já com saudades, cupcake? - Leo perguntou com um sorriso no rosto.
- Vá se ferrar. - falou sem entusiasmo.
- Uma boa notícia: chegaremos por volta de 15 minutos, segundo os meus cálculos.
- Ainda não encontrei a boa notícia.
- Essa é a boa notícia. - Leo retrucou sem entender.
- Não vejo nada de bom nessa notícia. - respondeu sem entusiasmo.
- Só fomos buscar você para te levarmos ao Acampamento.
- Mais um regime interno para a minha lista. - resmungou.
- Como? - perguntou Leo, interessado nas histórias que Michelle poderia ter para contar.
Mas ela não estava interessada em compartilhar essas histórias. Nem com ele, nem com ninguém.
- Fica na sua.
Olhou em volta. Nada parecia pior do que estar em regime fechado novamente, isolada do mundo lá fora. Mas, diferente das outras vezes, essa trazia consigo um traço de esperança. Por mais que detestasse a ideia, parecia inevitável a ideia de tentar melhorar. Um esforço é poderoso, dizia seu pai. Não!, seu subconsciente retrucou, não iria se apegar a nenhum lugar. Fugiria, traria história e emoção para aquele tal Acampamento. Teria seu nome estampado em todos os meios de comunicação que teriam os semideuses de agora e do futuro. Seria um personagem caótico que todos odiariam e ela seria independente. Virou-se para Leo, a única forma de vida além dela na sala.
- Olhe em meus olhos, já! - imediatamente Leo obedeceu. - Você e Nico vão me ajudar a fugir do acampamento, porque eu não gosto e não vou viver presa. Estamos entendidos?
-Si-sim. - ele gaguejou.
Michelle não se deu ao trabalho de responder, apenas se deitou no sofá marrom cobre.
- Posso te chamar de Chelle também? - perguntou ele.
- Por que está pedindo minha permissão? Pelo o que eu sei, você não pediu a autorização da Piper McLean para chamá-la de "Rainha da Beleza". E, mesmo depois de ela pedir para que parasse, você continuou. Também não pediu permissão para chamar a Hazel Levesque de "Miss Sub-mundo". Assim como chamou a Calipso de "Flor do Dia" sem pedir sua permissão. Por que não cria um nome ridículo para mim também sem pedir minha permissão? Não sou diferente delas, afinal.
- Como sabe sobre a Calipso?
- Seus pensamentos são todos sobre ela.
- Quando descobrimos sua mãe eu garanto que seu apelido ridículo virá à tona.
- Que assim seja. - fechou os olhos e caiu no sono novamente.
Estava em um parquinho, cercada por crianças de diferentes idades, algumas apontando, outras apenas olhando, mas todas rindo. Ela viu ela mesma numa versão de quatro anos, encolhida no centro de uma roda de horrores infantil.
- Ei, Michelle! - gritou um menino de dentes cavalados. - Amaldiçoou quantas pessoas hoje, bruxa? Hein, bruxinha?
- Não sou bruxa. - choramingou baixinho.
- Mas você sabe fazer feitiçaria, lembra? - perguntou uma menina de cabelos pretos e lisos.
- Não pedi para nascer desse jeito...
Geralmente, a essa hora do pesadelo, Michelle já teria acordado. Porém, para a lamentação interna dela, ainda não tinha despertado, prolongando seu sofrimento.
- Feiticeira de bostinha! Sabia que quando crescer sua existência será uma vergonha para o mundo? Sabia que vai decepcionar as pessoas quem mais ama?
E como se tivessem ensaiado começaram a recitar em uníssono.
- Que saco! - saiu do convés e voltou para seu quarto.
Os dois dias seguintes foram a mesma bosta: todos ficavam em seus quartos, não interagiam, saiam para fazer as refeições, voltavam para os quartos e de noite algum monstro atacava e destruía uma parte do barco.
Ainda faltava um dia para chegar no Acampamento e Michelle estava extremamente entediada. Foi até a cabine do capitão e se deparou com Leo.
- Já está tão dependente de mim?
- Cale a boca, inútil!
- Claro, flor de laranjeira.
- Inútil. - murmurou enquanto se jogava no sofá.
- Animada?
- Por que estaria animada?
- Porque amanhã chegaremos no Acampamento. Seu novo lar.
- Estou mais pra nervosa do que para animada com esse tal novo lar.
Leo apertou um dos muitos botões e se sentou junto a Michelle.
- Por que está nervosa?
- Porque sim! E se eu não me der bem por lá?
- Você é forte. Já está feita por lá. Ao menos os filhos de Ares não vão a incomodar.
- Duvido muito.
- Se for do seu agrado podemos fazer um acordo.
- Depende.
- Eu te protejo...
- Não preciso da sua proteção e da de ninguém!
- Confie em mim. Estou lá há mais tempo que você e sei que lá tem pessoas que não vão deixar sua chegada passar despercebida.
Michelle pensou no assunto e chegou a conclusão que aquele trato era vantajoso, afinal.
- O que vai querer em troca?
- Depois eu penso nisso.
- Fala agora senão nada feito!
- Quem perde é você.
- Tudo bem! - disse suspirando. - Eu aceito.
- Pode crer que o meu preço não é nada que você não deseje. - disse se aproximando.
- Leo, sai!
- Vejo em seu olhar que está apaixonada por mim como leões são apaixonados por antílopes.
- Isso foi extremamente ridículo.
- Sei que me ama e não precisa esconder isso de mim.
Nico entrou no cômodo e percebeu que Leo e Michelle estavam sozinhos na cabine.
- Interrompo algo? - perguntou. - Posso sair se preferirem.
- Não interrompe nada. - deu ênfase na palavra "nada". - Pode ficar se quiser.
- Não deveria estar no mastro? - Leo perguntou desconfiado.
- Tenho motivos para não estar lá.
- E por acaso um desses motivos é ruivo e tem olhos dourados, colega? - Leo perguntou brincalhão.
- Não deveria estar dirigindo esse... Troço?
- Está no automático. - disse indignado. - É um navio. Não um... Troço.
- Você fala como se isso fosse totalmente seguro.
- Isso é seguro.
- Você sabe que quase tudo que constrói jamais é totalmente seguro.
- Pare de mentir!
Michelle não estava mais aguentando aquela discussão.
A garota se levantou num salto.
- Não vou ficar aqui para escutar discussão!
Ela foi embora e Leo a seguiu.
- Quero ficar sozinha!
- Então vamos ficar sozinhos juntos.
- Pelo amor dos deuses, você é insuportável.
- Só vim pedir desculpas pela discussão.
- Desculpas aceitas. - passou a mão nas mechas ruivas. - Vou dormir. Me acorde quando for a hora do jantar.
- Ok.
- Não foi um pedido.
Michelle foi para seu quarto e nem sequer trocou de roupa, simplesmente se jogou na cama e logo adormeceu.
Estava na frente de uma casa. Era noite e um vulto a perseguia.
- Quem é você?
- Já se esqueceu de mim? Aposto que seu pai não esqueceria de mim tão fácil. - sua voz era como um sibilo, um tanto feminina.
- Eu conheço essa voz.
- Pelo visto não fiz um bom trabalho quando forcei você e seu pai a saírem de Los Angeles, minha irmã.
Michelle ficou quieta.
- Eu sempre soube. Desde a primeira vez que a vi eu soube que era a escolhida.
- O que quer dizer com isso?
- Seus cabelos são vermelhos. Foi amaldiçoada. Algo como um castigo bem poderoso.
- Pelo o que eu fui castigada?
- Deixarei que descubra sozinha. Entre na casa e pegue o que seu pai roubou de ti. - a incentivou.
Em um acesso de coragem Michelle adentrou na casa. A sala seria muito aconchegante se não estivesse queimada. Em cima da lareira haviam porta retratos queimados, com exceção de um. Ela o pegou e examinou a foto. Só haviam três pessoas: um homem alto, com cabelos escuros e olhos negros, que vestia uma calça jeans e uma blusa branca e uma mulher de longos cabelos castanhos e olhos verdes. A mulher era bem bonita e usava um simples vestido verde água. No meio do casal, havia uma garotinha de cabelos ruivos, olhos dourados e que usava um vestidinho vermelho de babados. Michelle se assustou ao ver na foto pessoas que conhecia. Eram ela, aos nove anos, seu pai e sua madrasta, Lâmia. Memórias apareceram em sua mente, memórias essas que se encontravam adormecidas na mente confusa de Michelle.
- Se você quiser eu posso te ajudar a entrar nessas memórias e lembrar. - a voz sussurrante disse.
Ainda encarando sua versão mais nova, Michelle tomou uma decisão.
- Me ajude. Quero lembrar de tudo que puder.
A casa se dissolveu. Quando abriu os olhos novamente viu a mesma casa, bem mais nova e limpa. Duas pessoas estavam na sala: ela, uma versão mais nova, que brincava, e Lâmia, com um sorriso diabólico.
Lâmia, em um segundo, agarrou a mão da criança Michelle e a levou para um quarto no segundo andar. O pai de Michelle também estava lá. Lâmia entrou e trancou a porta com todos dentro do cômodo. Michelle olhou para baixo e viu que seus pés haviam desaparecido, se transformado em uma nuvem cinza e que ela agora flutuava como uma pena.
- Foi mais fácil do que imaginei enganar vocês! Até nunca mais, criança demoníaca! - Lâmia rugiu para a menininha. - Incantare: Templum Incendere! - ela gritou e a casa explodiu em chamas.
Lâmia desapareceu.
O pai de Michelle tentava arrombar a janela mas esta não cedia e o atrito começava a machucar o ombro dele. Ficava a cada segundo mais quente e Michelle não demonstrava o quão fraca estava.
- Querida. - chamou seu pai. - Sabe o que tem que fazer.
- Não, papai! Eu não sei o que tenho que fazer! - ela gritou.
- Apenas diga o que quer que aconteça agora.
- Não funciona, papai!
- Querida, se concentre, senão todos nós vamos morrer.
- Incantare: Tutus Semita! - ela disse determinada.
O fogo abriu uma passagem, permitindo que pai e filha saíssem do quarto em chamas.
- A porta está trancada. Querida, vá na escrivaninha e pegue na terceira gaveta a chave reserva.
Michelle assim o fez. Charles abriu a porta com as mãos tremendo e pegou a filha no colo, avançando nas chamas que se estendiam pelo corredor que parecia não ter fim. Sangue escorria da sobrancelha de Charles e o nariz da filha sangrava.
- Suficiente! Não desejo ver mais nada! - Michelle berrou e a cena se desfez, voltando a casa queimada. - Lâmia, sua víbora, apareça de uma vez!
Lâmia saiu das sombras com o mesmo sorriso diabólico da memória e exatamente igual a foto que antes Michelle segurava.
- Olá, Michelle. Aqueles sim foram os verdadeiros anos dourados.
- Você se casou com meu pai a força, me tratou como lixo a minha vida inteira e tentou nos matar! Isso são seus anos dourados?! - ela perguntou exalando fúria.
- Oh, pelo amor dos deuses, pare de gritar! Tenho certeza que suas habilidades vão além de gritar como se fossemos todos surdos e caquéticos. - Lâmia reclamou. - Estou bem aqui, logo estaremos lutando no mesmo lado e não parece maravilhoso? Saber que não irá morrer pelas minhas mãos?
- Jamais lutarei ao lado de uma cobra peçonhenta como você!
- Jamais é um tempo enorme, não acha?
Michelle foi acordada por Leo, que a cutucava, insistente.
- Acorda! Hora do jantar!
- Já acordei, pode parar! - ele não fez menção de parar.
Deu um tapa em sua mão.
- Ai! - ele gritou.
- Não mecha comigo.
- Vai precisar de muito mais para que eu não mecha com você, docinho. - ele disse rindo. - Não acha que dormir de roupa normal é meio desconfortável?
- E daí? - perguntou ácida.
- Achei engraçado o fato, apenas.
- Dane-se! Saia logo do meu quarto! - foi empurrando o garoto.
- Já estou indo! Afinal, quem vai pilotar esse troço senão eu?
- Eu não ligo, só saia de uma vez!
Tomou um banho e vestiu uma calça jeans e uma blusa com estampa étnica. Encarou a enorme cicatriz que tinha no braço. Seu pai costumava contar que ela adquirira aquela cicatriz numa das muitas vezes que fugira de casa, mas, agora, depois do sonho, lembrou num piscar de olhos como a ganhou.
Flashback on
Tinha acabado de sair de casa e pensava no como aquilo não deveria ter acontecido.
- Ah, pão de mel, não era pra você sair disso viva. - Lâmia disse com sua voz rouca tentando ser gentil.
Com uma rapidez extraordinária, a mulher agarrou Michelle pelo pescoço.
- Não está sendo uma boa menininha, que feio!
- Me largue, sua velha feia! - a menina gritava a ofendendo.
- Você vai se arrepender de ter dito isso, pirralha infer... - não pode continuar com as ofensas, pois Michelle mordeu um dos braços que a segurava.
Lâmia urrou de dor. E, sem perder tempo, Charles atravessou o monstro com uma espada afiada.
Flashback off
Saiu de seu quarto e foi na direção de Meredith, que comia sozinha num canto, encarando Eric, enquanto esfaqueava seu bife com força. Preferiu não interromper a situação porque não queria acabar com outro corte no braço. Andou até o mastro, mas Nico estava lá, dormindo. Não o acordaria. Andou arrastando os pés até a sala de controle, e Leo estava lá, ao contrário dos outros, não fazia nada com grande emoção.
- Já com saudades, cupcake? - Leo perguntou com um sorriso no rosto.
- Vá se ferrar. - falou sem entusiasmo.
- Uma boa notícia: chegaremos por volta de 15 minutos, segundo os meus cálculos.
- Ainda não encontrei a boa notícia.
- Essa é a boa notícia. - Leo retrucou sem entender.
- Não vejo nada de bom nessa notícia. - respondeu sem entusiasmo.
- Só fomos buscar você para te levarmos ao Acampamento.
- Mais um regime interno para a minha lista. - resmungou.
- Como? - perguntou Leo, interessado nas histórias que Michelle poderia ter para contar.
Mas ela não estava interessada em compartilhar essas histórias. Nem com ele, nem com ninguém.
- Fica na sua.
Olhou em volta. Nada parecia pior do que estar em regime fechado novamente, isolada do mundo lá fora. Mas, diferente das outras vezes, essa trazia consigo um traço de esperança. Por mais que detestasse a ideia, parecia inevitável a ideia de tentar melhorar. Um esforço é poderoso, dizia seu pai. Não!, seu subconsciente retrucou, não iria se apegar a nenhum lugar. Fugiria, traria história e emoção para aquele tal Acampamento. Teria seu nome estampado em todos os meios de comunicação que teriam os semideuses de agora e do futuro. Seria um personagem caótico que todos odiariam e ela seria independente. Virou-se para Leo, a única forma de vida além dela na sala.
- Olhe em meus olhos, já! - imediatamente Leo obedeceu. - Você e Nico vão me ajudar a fugir do acampamento, porque eu não gosto e não vou viver presa. Estamos entendidos?
-Si-sim. - ele gaguejou.
Michelle não se deu ao trabalho de responder, apenas se deitou no sofá marrom cobre.
- Posso te chamar de Chelle também? - perguntou ele.
- Por que está pedindo minha permissão? Pelo o que eu sei, você não pediu a autorização da Piper McLean para chamá-la de "Rainha da Beleza". E, mesmo depois de ela pedir para que parasse, você continuou. Também não pediu permissão para chamar a Hazel Levesque de "Miss Sub-mundo". Assim como chamou a Calipso de "Flor do Dia" sem pedir sua permissão. Por que não cria um nome ridículo para mim também sem pedir minha permissão? Não sou diferente delas, afinal.
- Como sabe sobre a Calipso?
- Seus pensamentos são todos sobre ela.
- Quando descobrimos sua mãe eu garanto que seu apelido ridículo virá à tona.
- Que assim seja. - fechou os olhos e caiu no sono novamente.
Estava em um parquinho, cercada por crianças de diferentes idades, algumas apontando, outras apenas olhando, mas todas rindo. Ela viu ela mesma numa versão de quatro anos, encolhida no centro de uma roda de horrores infantil.
- Ei, Michelle! - gritou um menino de dentes cavalados. - Amaldiçoou quantas pessoas hoje, bruxa? Hein, bruxinha?
- Não sou bruxa. - choramingou baixinho.
- Mas você sabe fazer feitiçaria, lembra? - perguntou uma menina de cabelos pretos e lisos.
- Não pedi para nascer desse jeito...
Geralmente, a essa hora do pesadelo, Michelle já teria acordado. Porém, para a lamentação interna dela, ainda não tinha despertado, prolongando seu sofrimento.
- Feiticeira de bostinha! Sabia que quando crescer sua existência será uma vergonha para o mundo? Sabia que vai decepcionar as pessoas quem mais ama?
E como se tivessem ensaiado começaram a recitar em uníssono.
O véu celestial descerá
E a cabeça dividida, bagunçará
Aqueles que estão disfarçados
Facilmente serão subjugados
O esconderijo tardará a aparecer
E pelas mãos do líder virá a padecer
E a cabeça dividida, bagunçará
Aqueles que estão disfarçados
Facilmente serão subjugados
O esconderijo tardará a aparecer
E pelas mãos do líder virá a padecer
Naquele momento, uma garota, ainda entoando a poesia, entrou no círculo e chutou as costelas da garotinha. As outras crianças seguiram o exemplo da menina e entraram no círculo e chutaram-na, sem deixar de entoar a poesia.
Acordou berrando, horrorizada. Em poucos minutos, todos estavam na sala de comando tentando acalmá-la. Meredith fazia tranças no cabelo da melhor amiga enquanto cantava um rock bem antigo.
- Más notícias, amicos. - Leo declarou.
Acordou berrando, horrorizada. Em poucos minutos, todos estavam na sala de comando tentando acalmá-la. Meredith fazia tranças no cabelo da melhor amiga enquanto cantava um rock bem antigo.
- Más notícias, amicos. - Leo declarou.
- Era só o que me faltava. - Meredith disse um tanto irônica. - Quais são elas?
- Chegamos no nosso lar. - o garoto dos reparos sorriu como se não houvessem preocupações no mundo que vivia.
Não podia imaginar o quão terrivelmente errado estava.
Não podia imaginar o quão terrivelmente errado estava.