segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Capítulo 5 - Desventuras do dia-a-dia


  

Capítulo 5- Desventuras do dia-a-dia


MEREDITH


Meredith sempre foi filha única em toda a sua vida e sempre pensou em como seria ter um irmão ou irmã. O que ela com certeza não imaginava era que seu irmão mais velho tinha uma tendência de ignorá-la.
    Ela demorou para se levantar pois no dia anterior não conseguira dormir rapidamente. Ela queria ter tido o prazer de continuar dormindo, mas ficar na cama estava sendo insuportável. Desceu a da beliche e observou que Percy não estava na beliche de cima. Isso podia querer dizer que ele estava no pavilhão tomando café ou vagando pelo chalé.
  Ouviu o barulho da descarga, é claro que era Percy, a não ser, talvez, que alguém tenha invadido o chalé para usar o banheiro. Ele saiu do banheiro com uma toalha enrolada na cabeça. Depois de secar os cabelos ele largou sua toalha na beliche, se dirigindo para a saída imediatamente, ignorando a irmã mais nova.

  - Bom dia, Percy. - ela falou numa tentativa de chamar a atenção do irmão.
- Oi... - respondeu vazio.
Ele saiu do chalé sem sequer olhar para a cara da menina. Aparentemente não estava no humor para conversas.
Depois de ser ignorada completamente, Meredith seguiu até o pavilhão para tomar um bom café da manhã. Se havia algo no mundo que ela gostava mais que participar das brincadeiras dos gêmeos Stoll era, com certeza, comer. Comeu um prato de ovos com bacon acompanhado de um copo de achocolatado.
 Logo após do café, ela resolveu refazer seu tour pelo Acampamento e pensar em como seria agora depois da sua reclamação. Ela não conseguira encontrar Michelle na noite passada e foi um empurra-empurra só para levá-la ao chalé 3. 
  Uma menina com cabelos que pareciam alterados pela exposição do sol correu em seu encontro com um sorriso travesso, deixando bem claro que escondia algo que valia a pena ser dito. Mas Meredith não estava - e nunca estava - no ânimo para fofocas. 
  - Olá, eu me chamo Aria Clifford, sou filha de Apolo. Tem um irmão meu que quer encontrar com você no Estábulo. - Aria piscou. - Mas é só uma sugestão.
- Irmão seu? - Meredith ponderou. - Quem é?
Aria contorceu o rosto em uma expressão confusa.
- Você não sabe quem é?
- Se estou perguntando é porquê não sei. - Meredith fingiu uma risada.
Ela tinha sido muito grossa com Aria Clifford, mas, esta pareceu não notar nenhuma grosseria.
- Ah, sim! - Aria riu histérica. - Enfim, acho melhor ir logo. 
Meredith tentou ver o lado positivo da situação, que era uma coisa que ela fazia com frequência, para tentar amenizar os problemas que se metia. Pelo menos uma menina do chalé de Apolo simpatizou comigo, pensou. Aria parecia ser legal, tirando seu jeito histérico e muito inocente. Ao contrário do meu "simpático" irmão.
   Enquanto tentava chegar no Estábulo, ela pensou em Michelle. Realmente precisava conversar  com a melhor amiga, Michelle poderia não ser muito boa com os sentimentos das outras pessoas, mas, quando era Meredith quem precisava de consolo, Michelle sempre ajudava. 
       Quando chegou no Estábulo, se deparou com um cavalo com asas. Um pégaso, concluiu. Ficou hipnotizada pelo animal todo branco, que parecia cintilar. Ela acariciou o animal, que adorou o carinho que recebia.
  - O nome dele é Héspero. - a voz de um semideus que ela não conhecia se manifestou.
- Como sabe disso? - ela perguntou.
- Contaram pra mim.
  O rapaz dos cabelos dourados deu cubos de açúcar para Héspero. Héspero gosta do menino de cabelos dourados. 
- Ele fala dele mesmo na terceira pessoa, e isso é muito legal nos bichos. Harry, você tem um cubo de açúcar?
- Harry?
- Sim, oras. - Meredith riu. - Seu nome é Harry Keaton.
- Meu nome definitivamente não é Harry Keaton.
Meredith se virou. Aquele não era Harry Keaton. Aquele era Eric Houser, o menino que ela queria espancar há um tempo. Ficou boquiaberta, estava esperando qualquer outra pessoa. Ela teve uma atração momentânea por Will Solace, até descobrir que ele era gay e que ela não tinha nenhuma chance. Depois, teve um crush em Harry Keaton, um dos meninos mais velhos do chalé de Apolo.
- Você? - ela perguntou assustada.
- Quem você esperava, Quíron? - ele perguntou sendo sarcástico.
- Não, eu esperava Harry Keaton. - ela disse se virando para acariciar Héspero mais uma vez.
- Imagino que não saiba, mas, Harry tem namorada. - ele riu alto o suficiente para que Héspero batesse os cascos. - Ashley Murphy, filha de Hefesto. 
- Você fica fofocando sobre quem namora quem no seu chalé? - ela perguntou.
- Harry fala muito alto quando estou tentando dormir. - ele disse com raiva. - Não tenho mais meus fones de ouvido e nem meu celular, então não tenho mais como ouvir músicas. Enfim, o que ele disse?
- Ele quem? - Meredith perguntou confusa.
- Héspero. - ele chegou perto do animal. - Filhos de Poseidon falam com cavalos. Ele deve ter dito alguma coisa.
Diga que Héspero gosta do menino de cabelos dourados. 
- O cavalo está me dando ordens de te dizer que ele gosta de você.
Eric sorriu e acariciou o cavalo. 
- Você tem um cubo de açúcar? - ela perguntou e o menino a entregou um dos que tinha. - Obrigada.
   A menina dos olhos azuis deu um cubo de açúcar para Héspero. Héspero gosta da menina dos olhos azuis. 
  A morena riu com os pensamentos do animal. Ah, esses animais excêntricos de hoje em dia. Quando se deu conta de que outro bicho também estava na sala, deu pulo de susto ao ver o animal com a penugem mais dourada que havia visto. Isto, obviamente, levando em consideração que animais com penugem dourada são extremamente comuns. 
- Ele é seu? - ela perguntou enquanto Eric acariciava o animal.
- Depende de como você considera os termos possessivos. - ele deu de ombros. - O nome dela é Aldara.
- Um presente alado. - Meredith traduziu.
- É isso aí. - ele disse. - Queria te oferecer um passeio de pégaso em desculpas pelo o que aconteceu naquela noite no Argo II.
- Não me lembre disso. - a morena pediu.
- Desculpe, eu achei que pudesse ser um monstro.
- Deveria ter olhado antes de me dar um murro no rosto! - a menina berrou.
- Ok! Desculpe! - ele elevou o tom de voz. - Então, aceita ou não o passeio?
- Não sei... Acho que não é certo deixarmos o Acampamento. Quíron me alertou sobre os perigos fora da barreira mágica. 
- E não temos permissão. - Eric cruzou os braços e se encostou na parede.
- Você vai se conformar com essa facilidade? - ela perguntou indignada. - Primeiro o murro e agora vai desistir desse jeito? Quer saber, acho que você se conforma com as regras impostas muito facilmente.
- Ah, se você soubesse. - ele riu de uma piada interna. - Não. Dentre todas as pessoas no mundo sou eu quem desrespeita todas as regras.
- Então costumam te considerar um rebelde? - ela perguntou.
- Sim. - ele sorriu dando de ombros.
- Aposto que dizem que você é um daqueles rebeldes sem causa. Cara, você bateu em uma mulher. Isso é rebeldia sem causa.
Os dois começaram a rir alto.
  Enquanto Meredith ria parecendo uma foca, ela observou cada detalhe no rosto do menino. Não era algo que ela fazia com frequência. Seus cabelos eram dourados como ouro, lisos, tinha uma pele levemente bronzeada e olhos de cor azul céu com pontos em castanho mel ao redor da pupila. Diferentemente de Aria, Eric era alto. Era um contraste com todos os filhos de Apolo que tinha visto até agora. Harry Keaton era uma formiga do lado de Eric Houser.
Quando a crise de risos passou para ambos, Meredith encarou suas unhas pintadas com um azul tampa-de-caneta. Sempre gostara da cor azul.
- Está pensando em quê? - Eric perguntou. - Aposto em como pensa sobre insultar Annabeth Chase.
- Na verdade eu estou pensando no hambúrguer de cheddar que eu vou comer no almoço. 
Eles começaram a rir novamente e os cavalos começaram a relinchar.
- Meredith. - ele a chamou. - Isso é um momento romântico? 
A garota ponderou. Conseguiu sentir a inocência da pergunta de Eric, por isso não o socou.
- Eu não sei. - ela deu de ombros. - Você acha que é?
- Bem, o que eu sei sobre momentos românticos é que eles geralmente envolvem beijos. - ele a olhou de relance. - E nós não estamos nos beijando.
- E nem vamos. - a garota se levantou, deixando Eric sozinho com Héspero e Aldara.


  Não correu rápido por dois motivos. Número um: ela não gostava de correr. Número dois: sua forma de correr era muito estranha. Em poucos segundos Eric conseguiu a alcançar. Ele corria rápido.
- Ei, pare com isso. Eu não vou te beijar. Não te acho bonita o suficiente para isso. - ele disse. - Então, meu pedido de desculpas ainda está valendo. Que tal sair um pouco desse confinamento?
Ela pensou em como aquilo era errado e como ela se daria mal. Pensou no olhar repreensivo de Quíron e no que ele diria quando retornassem. O centauro botava expectativas em Percy, e, infelizmente, transferiu um pouco das suas expectativas para ela também.
- Tudo bem, vamos logo antes que eu mude de ideia. - a morena disse de uma vez.
- Ótimo. Sairemos agora. - ele disse assobiando.
- Agora?! - Mel perguntou hesitante.
- Sim. Qualquer instante desperdiçado é um desrespeito com o universo. 
- Você sabe que eles vão nos dedurar, seu ridículo! - ela o estapeou no braço. - Eric, você está ao menos me escutando?!
- Astrapi, pare com isso. - ele implorou. - A não ser que eu e o cavalo brilhemos no sol, não há como eles verem. Aldara sabe como ser discreta.
Quando Meredith subiu no pégaso que relinchava contente, ela teve a certeza que se meteria em mais uma encrenca. Já não bastava ter um irmão que a ignorava, tinha que copilar com coisas que a meteriam em problemas. Antes que ela pudesse tentar descer do animal, este decolou com rapidez extrema. Ela, involuntariamente, agarrou-se as costas de seu amigo - se é que eles eram amigos - e gritou. O vento batia em seus cabelos pretos como um furacão e a camisa do Acampamento estava colada em seu corpo devido as rajadas de vento. Estava de olhos fechados, mas podia sentir as asas do pégaso dourado baterem fortemente nas correntes de ar, quebrando-as como se fossem nachos. Enquanto ela continuava gritando e com o rosto pressionado nas costas de Eric, este gargalhava na sua frente.
- Pelos Deuses, Astrapi! - ele começou. Abra esses olhos azuis e veja aonde você está.
- Por que eu deveria abrir meus olhos? Se esqueceu que você me arrastou para esse lugar? - ela perguntou com a voz abafada.
- Sei que você vai gostar. É impossível não gostar! - ele falou alto. - Seu lugar é o mar mas o céu pode ser bem agradável.
   De vagar ela desencostou o rosto das costas de Eric e abriu os olhos, tendo a vista de uma imensidão azul, como o mar, só que com manchas brancas: nuvens. Soltou o ar rapidamente por causa da emoção que sentia ao olhar como o mundo era belo daquela altura. Olhou para baixo e viu o chão de Long Island. 
- Eu disse que você ia gostar! - ele disse confiante.
- Eu não disse que gostei. - ela respondeu. - Não tem como você ter certeza que eu gostei.
Ele não olhou para trás, mas seus ombros subiram. Era a ombrada do desafio eminente.
- Bem, a sua respiração mudou totalmente. Antes, ela estava rápida e descontrolada, agora, está calma e serena. - como se lesse a mente dela, ele respondeu a próxima pergunta com outra pergunta. - Esqueceu que está apoiada nas minhas costas?
Ela sentiu suas bochechas ficarem vermelhas como as de Dionísio, uma coisa que acontecia direto quando ela ria muito ou ficava envergonhada. Ela afastou um pouco o corpo do dele e observou a paisagem. Após alguns minutos, desceram em uma cidade que era cheia de prédios, e muitas, muitas, muitas pessoas. Era Nova York, ela reconheceu. O Empire State Building brilhava quando a luz do sol refletia em sua estrutura. Estavam rodeados de pessoas que pareciam não notar que haviam dois adolescentes sentados em um animal mitológico. A névoa, lembrou. Por isso eles não vêem Aldara. Provavelmente os humanos estariam vendo dois adolescentes saírem de dentro de um táxi ou ônibus, ou, na pior das hipóteses, de um jatinho particular. Desceram juntos do animal, que levantou voo assim que se estabeleceram no chão. Começaram a andar pela multidão a dentro, e não sabiam para aonde estavam indo, ao menos Mel não sabia. Ela só estava seguindo o garoto.
- Onde nós estamos indo? - ela perguntou.
- Você já foi em um museu de cera? - ele perguntou. - Eu sei que você vem de Los Angeles e que lá tem absolutamente tudo, mas não custa perguntar.
- Não, nunca fui. - ela disse, desconfiando. - Me responde.
Depois de andar muito, Mel não estava nem mais pensando aonde estava pisando, e acabou por dar um encontrão em Eric, que a segurou pelos ombros e a virou para uma grande construção. Ela ficou sem ar.
- Bem vinda ao Madam Tussauds de Nova York! - ele exclamou abrindo os braços em frente a construção.
Mel não o respondeu, pois já estava correndo até a entrada e comprando dois bilhetes. Quando finalmente conseguiram entrar, a Meredith que não corria havia dado lugar a uma Meredith eufórica que corria por todos os lados observando seus artistas favoritos com louvor. A cada artista que passava, a menina entrava em um estado de quase-pânico e lamentava por não ter mais seu celular. Enquanto ela observava a estátua de Luís XIV, Eric chamou a menina para contemplar junto dele a estátua da Rainha Elizabeth II. Tinham poucas pessoas naquela parte do museu e todas pareciam estar mais interessadas na estátua de Barack Obama do que na Rainha. 
- Preciso tirar alguma memória dessa visita de última hora a Nova York. - o menino disse frustrado. - Lá em Detroit a gente não tem essas coisas. Vou apertar a mão da Rainha, é isso.
- Não seja burro. É proibido encostar nas estátuas, quanto mais apertar as mãos delas! - Meredith se fingiu de preocupada. 
- Ah, deixe essas regras de lado! Já quebramos no mínimo uma dúzia delas hoje e podemos quebrar mais uma. É feita de cera endurecida, seu eu apertar a mão ela não vai se quebrar. 
    E assim ele fez, discretamente chegando perto da estátua e dando um "toca aí" de leve. Assim que se afastou, o braço inteiro caiu no chão e se espatifou em milhões de pedaços. A menina ficou apavorada quando seguranças vieram correndo na direção deles. Eric ainda encarava com pânico a bosta que tinha feito, teve de ser puxado para que corresse rápido em direção a onde tinham descido de Aldara. Saíram correndo do museu, se espremendo por entre milhares de pessoas apressadas - como eles - . Eric assobiou e Aldara desceu do céu como um relâmpago, e eles subiram no pégaso e decolaram imediatamente.
- Não foi minha melhor ideia, admito. - Eric lamentou. - Mas, ao menos, conseguimos escapar. 
- Eu sinto falta da época em que minha única preocupação era o clima da Califórnia. - Meredith choramingou. - Para onde vamos agora? Quem sabe o Acampamento Meio-Sangue?
- É muito cedo para voltar para o Acampamento! Pensei em visitarmos um ponto turístico que em geral atrai muita gente.
- A colina Meio-Sangue? - ela tentou mais uma vez.
- Não, Astrapi. - ele revirou os olhos. - O Grand Canyon. 
- Oh, meus Deuses, Houser! - ela deu socos em suas costas. - Se nós nos metermos em mais encrenca do que já vamos nos meter por sua causa eu juro que vou... 
- Se você não calar a boca por bem eu calo por mal. - ele disse brincalhão.
Milhões de coisas passaram pela cabeça dela, mas ela não disse nada. Tentou arranjar algo para fazer enquanto não chegavam no local. Estariam perto de Las Vegas, que fica perto de sua cidade, Los Angeles. Como estaria Angellica, sua mãe? Ela faria uma ligação, ou, ao menos tentaria... Em meio a seus pensamentos ela adormeceu encostada nas costas de Eric. 
     Depois de um longo período de tempo, ela foi acordada por mãos masculinas que a sacudiam freneticamente. Abriu os olhos de vagar e deu de cara com o rosto de Eric, seus cabelos dourados e olhos azuis, que a encaravam. Ela se levantou, repreendendo todos os tipos de pensamento que se resumiam a: "Como ele é lindo." O Grand Canyon era enorme e maravilhoso. Ela se dirigiu até as grades de ferro e se apoiou nelas, respirando fundo e sentindo o cheio quase imperceptível do Rio Colorado. Uma das poucas vantagens de se ser filha de Poseidon.
         Passearam por toda a área aberta para exposição do cânion, parando depois para tomar um sorvete. Mel escolhera de amora, que fazia uma coloração roxo-azulada se manifestar. Já Eric pedira um sorvete sabor chocolate. Quando parou para observar, já era por-do-sol.
- Já é quase noite. - ela disse cutucando-o. - Deveríamos voltar para o Acampamento. Não quero que o Quíron note que saímos.
 - É, será bem ruim se ele notar. - ele subiu em Aldara. - Sobe aqui.
         A viagem de volta para o Acampamento foi muito diferente da primeira viagem, que foi raivosa e destruidora, mas agora se tornara calma e pacífica, enfeitada com tons de amarelo, laranja e rosa as nuvens. O chalé de Apolo havia recebido Eric com uma grande festa e muitas comidas deliciosas, o que ele achou desnecessário, e o seu chalé composto por apenas uma pessoa havia a ignorado e desprezado como se fosse uma mancha de café no sofá. Definitivamente os seus 15 anos não eram o ponto alto da sua vida. Quando chegaram no Acampamento já era noite. Furtivamente, aparentemente não notados, colocaram Aldara de volta no Estábulo e foram os dois para seus respectivos chalés. Porém, antes que pudessem concretizar seus objetivos, foram abordados pelas duas pessoas que menos queriam encontrar: Quíron e Annabeth.
- Não disse, Quíron? Estavam fazendo baderna. - dissse Annabeth, dando ênfase na palavra baderna.
- É proíbido deixar o Acampamento sem permissão, senhorita Astrapi e senhor Houser. - o centauro falou em um timbre forte.
Era o fim de Meredith. Se não tinha sido expulsa antes seria agora.
- Não saímos do Acampamento, Quíron. Isso é um engano. - Eric tentou defendê-los.
- Se não saíram, aonde estavam? 
- No Estábulo, com Héspero e Aldara. - o garoto mentiu novamente.
No momento em que Quíron estava parecendo se convencer das palavras que Eric tinha dito, Annabeth tirou um notebook de dentro de uma bolsinha. Abriu em um site qualquer e virou-o na direção dos dois, para que não somente Quíron visse seu conteúdo, mas eles também.
- "Dupla de adolescentes destrói o braço esquerdo da estátua da Rainha Elizabeth no Madam Tussauds de Nova York." - leu. - Essa notícia é de hoje.
- Como explicam isso?
- Não fomos nós! - Meredith mentiu.
Annabeth teclou mais algumas coisas em seu notebook, virando em seguida com a foto de dois adolescentes: uma menina de cabelos pretos e um menino de cabelos dourados, na fuga do museu.
- Eu te disse que esses semideuses novos não saberiam se comportar mediante a situação, Quíron. - Annabeth cruzou os braços após guardar seu notebook.
- O que sugere que eu os ofereça como punição pelo o que fizeram, Annie? - Quíron perguntou.
- Mande-os secar os pratos de hoje com os outros.
- Que assim seja.
       Derrotada, Meredith passou na frente dos dois, recebendo um olhar superior de Annabeth. Eu poderia arrancar fio por fio desses cabelos loiros, pensou. Eric vinha logo atrás, tentando achar as palavras certas para dizer. O problema era que não haviam palavras certas para serem ditas. Não haviam simplesmente palavras para serem ditas. 
- Olha, me desculpe... - sua fala foi interrompida pela mão esquerda da garota.
- Não diga nada, por favor, senão eu vou te espancar como eu tinha prometido. - ela disse segurando a raiva.
Ela sabia que a culpa também era dela, tinha concordado em sair. E isso só a dava mais ódio. 
Se dirigiram a cozinha do Acampamento, dando de cara com pilhas enormes de pratos a serem secos e com mais quatro meninas. A primeira era oriental e usava pulseiras brilhantes e acessórios desnecessários. A segunda usava os cabelos negros presos em um rabo de cavalo impecável e uma maquiagem terrivelmente rosa. A terceira tinha o cabelo com mechas loiras e usava um short colorido pequeno demais. E a última era normal, com cabelos loiros claros e olhos cinzentos, cobertos por óculos de grau. Quando Meredith ficou ao lado da última menina, Annabeth entrou pela porta segurando uma prancheta que a morena definiu como ridícula.
- Drew Tanaka, filha de Afrodite...
- Estou aqui, Annie! - a menina oriental respondeu com deboche.
- Isabella Stendhal, filha de Hécate...
- Aqui. - a menina de rosa respondeu e Meredith a reconheceu como sendo uma das meias-irmãs que Michelle havia contado sobre.
- Neasty Calder, filha de Íris... 
- Eu mesma! - a menina colorida bizarra respondeu com uma animação desnecessária.
- Sophia Hiregarth, filha de Atena... Minha irmã, eca!
- Estou aqui, Annabeth. E sim, sou sua irmã. - a menina dos cabelos castanhos claros disse.
Mel a achou divertida.
- Erick Houser, filho de Apolo...
- Hum. - Erick respondeu com um ruído.
- Meredith Astropi, filha de Poseidon...
- Eu. - Meredith disse sem nenhum humor.
- Muito bem! Podem começar a secar os pratos. Não se animem muito por não ter que lavá-los, hoje o pessoal comeu como porcos. - Annabeth bateu as mãos em expectativa. - E, talvez, apenas talvez, se forem rápidos, consigam chegar para a fogueira.
E então a loira saiu pela porta, seguida de vaias e de sinais obscenos. Mel se contentou apenas em revirar os olhos, com certeza ela não queria mais problemas para o seu lado, e Annabeth tinha toda a cara (e personalidade) de quem adoraria arranjar mais um problema. Começou, então, pela primeira fileira, a mais alta de todas, a secar um prato de cada vez. E como ela secou pratos, contou pelo menos 150, e ainda haviam mais 6 fileiras. Drew e Isabella discutiam sobre alguma coisa haver com cor de cabelo, algo que Mel realmente achava mais torturante do que secar uns 400 pratos. 
- Olha aqui, Drew, só porque você é filha da deusa da beleza, não quer dizer que você tenha o melhor cabelo! - Isabella esbravejava.
- É claro que eu tenho o melhor cabelo, sou filha da deusa da beleza! Eu sou a mais bonita em tudo! - Drew retrucou balançando o seu cabelo super liso enorme e suas 300 pulseiras.
- Não por muito tempo, ma chérie! - Isabella sacudiu seu rabo de cavalo quilométrico.
- Vai fazer o que, Stendhal? - Drew debochou. - Me jogar um feitiço?
- É, talvez eu te transforme num sapo! 
- PELO AMOR DOS DEUSES! - Sophia berrou repentinamente. - Podemos por favor terminar o nosso serviço? Quanto mais cedo acabarmos, mais cedo deixaremos de nos ver!
- Cala a boca, sua idiota! - disseram em uníssono. - Quem você pensa que é para nos dirigir a palavra?
- Que cabelo mal cuidado, essas unhas roídas e essa camiseta de uma marca super out! - Isabella foi dramática.
- Não é uma marca de roupas, sua retardada! São os Beatles, nunca ouviu falar? - Meredith entrou na confusão.
Eric tentou trazê-la de volta para o seu dever, mas, como ela já estava envolvida na situação, apenas se soltou da mão dele e continuou a discutir.
- E quem é você? - Drew perguntou olhando a morena com desprezo.
- Meredith Astrapi, chalé 3! - ela disse perdendo toda a sua paciência. - Quem diabos é você?
- Eu sou Drew Tanaka, meu bem! - sacudiu o cabelo novamente. - E eu não vou deixar uma babaca do chalé 3 ousar falar comigo!
Não adiantava mais pedir para que Meredith se acalmasse. Ela simplesmente fechou os olhos, apertou os dedos e ouviu um jorrão e gritos femininos. Quando abriu os olhos, viu uma imensidão de água, um bebedouro explodido e Drew, Isabella e Neasty todas molhadas. Elas gritaram, espernearam, lançaram pragas e finalmente foram embora. Sua primeira proeza como filha de Poseidon foi explodir um bebedouro, era uma coisa que ela sentiu vergonha, mas ao mesmo tempo se sentiu orgulhosa.
     Com a saída do trio, as coisas correram bem melhor.
- Obrigada por me defender. - Sophia disse.
- Eu fiz o que era certo. Você não pode deixar elas falarem com você desse jeito. - Mel respondeu. - Tem que reagir.
- Eu sei, mas mesmo assim, muito obrigada por jogar 10 litros de água no rosto delas. - Sophia sorriu alegre.
- Foi um prazer indescritível.
Logo depois, Sophia deixou a cozinha, e Meredith insistiu para que Eric fosse se divertir na fogueira. Ela ficou sozinha na cozinha, mas quando virou, deu de cara com seu irmão, Percy.
- Você que explodiu o bebedouro? - Percy perguntou curioso.
- Sim. - ela respondeu sem interesse. - Por que está interessado?
- Nada, eu... Eu explodi umas privadas na minha primeira proeza aquática.
- Interessante. - ela foi irônica.
Um silêncio extremamente constrangedor se instalou entre eles, e Mel ainda não tinha conseguido pensar em um motivo para ele ter aparecido e para estar falando com ela. Percy ameaçou sair do cômodo, mas voltou com uma expressão de pena. Pena de si mesmo.
- Eu só queria te pedir desculpas. - ele disse olhando para baixo. - Por ter te tratado mal e te ignorado hoje de manhã. Eu não conseguia acreditar que eu tinha uma irmã e o pai nunca tenha mencionado nada... Não é nada pessoal.
- Tudo bem, Jackson. - ela sorriu. - Se tivesse me dito teria evitado tudo isso. Mas, afinal, quem sou eu para julgar alguém por atitudes impulsivas? Suas desculpas estão aceitas.
- Vamos virar grandes amigos com o tempo. Irmãos de verdade. - ele sugeriu e ele concordou. - Só me desculpe por hoje.
- Não tem problema, sério! Só não me ignore novamente se não quiser levar socões. - ela disse e eles riram baixinho. - Você vem para a fogueira?
- A fogueira já terminou há um tempão. - Percy disse confuso.
Meredith sentiu uma contração em seu estômago: a fome. Também veio misturada com o nervosismo, raiva e todos os outros sentimentos negativos. Ela não poderia ter perdido justamente a fogueira, a melhor parte do dia no Acampamento. Colocou as mãos no rosto e as passou pelo cabelo.
- Que bosta! - exclamou. - Perdi o jantar. Vou ter que dormir morrendo de fome.
- Os filhos de Hécate pode arranjar comida. Eles fazem qualquer coisa aparecer. - Percy sugeriu. - Você é amiga da Michelle Overcast, não é? Ela pode arranjar comida para você.
- Obrigada! - ela sorriu abertamente. Vou passar no chalé, você vem?
- Vou.
Os dois foram juntos para o chalé, conversaram um pouco, mas Percy quis dormir. Ela, furtivamente, pegou o perfume de cachorro que estava de baixo da cama de Percy e espirrou o odor por todo o seu corpo. Coberta pelo cheiro de cachorro molhado, as harpias não a detectariam, e assim, ela poderia sair sem ser devorada. Abriu a porta com delicadeza e andou na ponta dos pés até o chalé 20. O chalé era cheio de pedras e de símbolos. Bateu com a batida secreta das duas, mas ninguém respondeu, então bateu de novo, mas não houve resposta. Decidida a falar com a melhor amiga, ela entrou no chalé, onde todos dormiam. Mal conseguiu dar um passo, pois escorregou no chão imediatamente, fazendo com que a madeira rangisse muito alto. Fechou os olhos em dor, e quando abriu, estava cercada por filhos de Hécate, que a encaravam. Exceto Michelle. Ela se levantou e desamarrotou a roupa, ainda sendo encarada por vários olhos coloridos. 
- A Michelle está aqui? - perguntou.
- Não. - um menino que Mel havia reconhecido como Anthony respondeu.
- Onde ela foi?
- Não sabemos. Ela sumiu. - Anthony disse.
- Como assim sumiu?! 
- Também não sabemos. Achamos que você saberia. - completou.
- Mas eu não sei. - deixou vago no ar.
- Então Michelle Overcast realmente sumiu. - Anthony falou com a voz mais grossa que o normal.
E o silêncio se instalou no chalé 20.






quarta-feira, 5 de março de 2014

Capítulo 4 - A chegada triunfal


Capítulo 4 - A chegada triunfal

MEREDITH

- Mas isso não é algo bom? - Meredith perguntou.
  Leo olhou divertido para a morena.
- Nada que importe. Acho que agora devemos sair do Argos II e ir para o Acampamento, ouvir as reclamações do Sr. D e blá blá blá. Lá, vocês serão reclamados e aí vai ser só alegria!
- Aprecio as suas palavras gentis, Leo, mas, creio que seria melhor você ficar de boca fechada. - Jason disse atrás de Leo.
Em questão de segundos, todos os olhares do barco se voltaram para o menino. Afinal, ele tinha sumido durante muito tempo e aparecera do nada.
- Onde você estava, cara? - Eric perguntou confuso.
- Tive que dar uma saída. Fui no Acampamento Júpiter, juntamente com Nico, conversamos com a Reyna. Consegui a permissão dela para trazer alguns romanos para o meio-sangue. - respondeu a pergunta.
Leo se virou para Jason, com um sorriso que precedia uma piadinha, entretanto, um olhar tenso. 
- Sua intenção é lotar o Acampamento?! Já está entupido de gente por lá, ainda temos mais esses e você realmente quer trazer mais gente?
- Ei, nós temos nome! - Eric disse com um olhar ameaçador.
- Se não nos querem aqui teremos o maior prazer de nos mandar de volta para as nossas casas. Até porque...
- Não queríamos estar aqui. - Michelle respondeu.
- Vocês... Entenderam errado! - Leo disse sem graça. - Eu quis dizer que já está cheio de pessoas no novo lar de vocês e talvez isso os incomode. Não que vocês, de fato, sejam o incômodo.
- Acredite, dentre todas as coisas, a quantidade de pessoas não será nada. - Meredith encarou Leo com uma seriedade que o deixou sem graça.
- Eu vou pegar minhas coisas e fingir que essa discussão nunca aconteceu. - Eric manteve seus olhos fixos em Meredith, que desviou seu olhar para Leo novamente. - Sugiro que façam o mesmo.
  Em silêncio absoluto, todos foram em seus quartos, pegaram suas bagagens e desceram do navio. Não tiveram uma visão muito ampla na primeira vez que bateram os olhos no Acampamento Meio-Sangue, pois uma multidão os cercava. Haviam no mínimo 30 campistas naquele meio, de variadas idades. O mais novo aparentava ter uns 9 anos, enquanto o mais velho parecia já ter seus 20 anos. Todos, sem exceção, vestiam camisetas laranjas. Dois gêmeos logo se aproximaram, ambos carregando um sorriso malicioso no rosto. Meredith não os considerou ameaçadores em nenhum momento.
  - Carne nova no pedaço! - falou o gêmeo à direita. - Parabéns, Valdez! Conseguiu voltar sem destruir o Argo II! É um milagre!
- O casco do navio, na verdade, foi danificado. - Meredith sorriu torto.
Di immortalis, ela sabe como sacanear uma pessoa! - apontou o da esquerda. - Meu nome é Connor Stoll.
- E meu nome é Travis Stoll. Somos, nós dois, obviamente, filhos de Hermes. Se precisar de qualquer coisa é só falar conosco. - Travis analisou. - Olha só, eles não tem doze anos. 
- Você é meio lerdo. - Michelle brincou.
- Por que diachos ainda não foram reclamados? - Connor perguntou. - Os deuses não costumam se atrasar.
- O que diabos é ser reclamado? - Eric perguntou enquanto cruzava os braços.
- É quando seu pai ou mãe assume sua maternidade ou paternidade. - Michelle respondeu.
Meredith ficou surpresa ao descobrir naquele momento que sua melhor amiga já sabia algumas coisas sobre o novo mundo.
- Qual seu nome, garotinha? - Travis se aproximou da garota.
- Michelle Overcast. E, nunca mais me chame de garotinha se não quiser ficar com 32 dentes negativos. - ameaçou.
- Mas é o número exato de dentes que uma pessoa tem. - Travis disse pensativo.
Ou ele era burro ou se fazia de burro, Meredith concluiu.
- Pois é. - Michelle balançou a cabeça.
- Por Hermes! Gostei de você! Deveriam andar com a gente. - Connor exclamou com um sorriso enorme.
- Dane-se. Só quero que minha mãe me reclame de uma vez. - Michelle bufou.
- Sua mãe acabou de reclamá-la. - disse uma garota no fundo da multidão.
Ela tinha cabelos loiros, ondulados e olhos cinzas. Sua atitude era superior, como se todos ao seu redor fossem débeis ou algo do tipo. Meredith sentiu antipatia aguda pela garota de olhos cinzas. Meredith olhou para Michelle e percebeu que a amiga exalava uma luz verde, que vinha de cima de sua cabeça. Era uma imagem translúcida de uma tiara dourada que flutuava acima da cabeça dela.
- Parabéns, Michelle! Sua mãe atendeu seu pedido! - Travis explicou.
-Você é uma legítima filha de Hécate! -  Connor disse sem aquele tom brincalhão de antes.
- Hécate? Que deusa é essa? - Michelle perguntou tentando encostar na tiara.
- Deusa da magia, das encruzilhadas e da névoa... - Nico deixou vago no ar.
- É, bem assim. - a menina encarou Nico como se ele tivesse algum tipo de doença. - Leo! Leve a Michelle para um tourzinho pelo Acampamento. Apresente-a a seus irmãos do chalé 20. E, pelo amor dos Deuses, não tente nada inapropriado.
- Ok. - Leo falou.
Um pouco antes de Leo e Michelle saírem para o chalé 20, ou brilho dourado começou a cintilar atrás de Meredith. Ela se virou, e a primeira coisa que viu foi um brilho tão dourado que teve que fechar os olhos. Emanava calor. Seria aquilo o Sol? Não, não era possível. Abriu os olhos e encarou a fonte do brilho dourado: uma aljava dourada lotada de flechas que flutuava acima da cabeça de Eric. O garoto ainda parecia atordoado com toda a luz e atenção que estava recebendo, e mantinha uma expressão de raiva nas sobrancelhas, Meredith pôde notar.
- Você... Foi... - Meredith disse em pausa, ainda acostumando seus olhos ao brilho excessivo. - Reclamado.
- Não, não posso crer! Você, filho de Apolo? - a garota dos olhos cinzas perguntou. - Algo de estranho está acontecendo. Tudo bem, só não cause nenhum problema.
- Acho que ele não está interessado em causar problemas. - uma voz ecoou pela cabeça da morena.
Oh, não. A voz era dela. Mas que diabos?! De onde aquela vontade de enfrentar a garota saiu do nada? Eric franzia as sobrancelhas loiras em direção a menina morena. 
- Ah, que saco! - a garota revirou os olhos. - Não tenho tempo para novatos! Connor, chame o Percy para fazer o tour com essa intrometida?
- Sim, Annabeth. - Connor disse animado.
Ao contrário de Connor, Annabeth não demonstrou nenhuma emoção sem ser nojo. Agarrou o pulso de Eric e o puxou Acampamento à dentro. Meredith não conseguia parar de reparar no contraste de altura entre Eric e Annabeth. Em poucos minutos ela ficara sozinha. 
Um pequeno tempo depois, um menino de cabelos pretos e olhos verdes se aproximou da garota.
- Você provavelmente é a Meredith. - o menino sorriu.
Dentes perfeitamente brancos. Que pecado.
- Em carne e osso. - ela abriu os braços em conformação. 
Ele sorriu novamente.
- Vai ser um prazer te mostrar seu novo lar. Meu nome é Percy, bem vinda ao Acampamento Meio-Sangue e está pronta para o "tour"? - fez aspas com as mãos.
- Podemos dizer que sim.
 Sorriu levemente para Percy e os dois começaram a andar pelo Acampamento.
- Ali são os chalés. - disse Percy, apontando para os tais chalés, que se distribuíam em formato de ômega. - Na esquerda temos o pavilhão de refeições e os banheiros.
 Havia muito movimento no centro da formação em ômega.
- Esse é o chalé de Hermes. - apontou para o chalé atrás de si, de pintura descascada e um caduceu acima da porta. - Como pode ver, é uma confusão só. Além dos filhos de Hermes, os semideuses que ainda não foram reclamados passam suas noites aqui. Hermes acolhe a todos.
- Interessante. - admitiu.
Para um deus, realmente era algo interessante.
- Relaxe, não vai ter que ficar por aí durante muito tempo.
Andaram mais para a frente e ele percebeu que a área começava a ficar maior. Desde de a primeira vista na descida do Argo II, o Acampamento Meio-Sangue só crescia. Percy apontou para a direita.
- Logo ali fica a Arena, lugar onde nos reunimos de vez em quando para lutar. Mais para o lado é a Forja. Atrás da Forja ficam o Arsenal e o Estábulo. Se gostar de pégasos vai amar o Estábulo.
- Pégasos?! - Meredith aumentou o tom da voz involuntariamente. Controlou sua animação. - Parece incrível.
- É mesmo. - Percy deu de ombros.
Ele agia como se pégasos fossem tão normais quanto cachorros.
- Ali ficam os campos de morango. O Acampamento tira seu sustento dele.
Continuaram seu caminho e Percy mostrou-a a parede de escalada e de longe ela pode ver a praia dos fogos de artifício. O anfiteatro, a quadra de vôlei, a sala de artes e o lago de canoagem. Mostrou também o pinheiro mais alto, que quebrava o contraste da colina, e contou a história que o cercava, que, Meredith achou no mínimo excêntrica. Na sombra da árvore repousava um dragão.
 O Acampamento Meio-Sangue parecia ter saído de um sonho. Aqueles sonhos que são tão bons que você chega a acreditar que eles realmente aconteceram.
- Agora vamos à Casa Grande buscar uma blusa pra você. - Percy disse.
-Certo. - Meredith concordou sorridente.
 Andaram até uma casa realmente grande. Devia possuir uns quatro andares, ela não conseguiu vê-la por inteiro devido a luz do Sol, e era pintada de azul céu e detalhes brancos.
Percy andou até a porta e fez um gesto com a mão para que ela o seguisse. Ao entrar, Meredith ficou boquiaberta mais uma vez, era uma sala ampla com uma escada no final do lado direito. Havia um quadro com informações e algumas imagens. Um tocador de discos bem antigo que estava perto de uma cabeça de leopardo.
    Sentado atrás de uma das mesas estava sentado um homem gorducho, baixo, que usava uma blusa de estampa havaiana, surpreendentemente chamativa. Seus cabelos eram uma mistura de preto ao início do grisalho e ele tinha as bochechas avantajadas e vermelhas, como se algo o irritasse. Segurava uma latinha de Coca Diet e parecia realmente entretido com o que fazia, isto era, nada.
 Percy pigarreou e conseguiu atrair a imagem do homem para os dois.
- Ah, olá, Peter. - disse o homem sem emoção. - É um grande desprazer reencontrá-lo.
- Meu nome é Percy, senhor.
O homem arqueou suas sobrancelhas volumosas.
- Tanto faz.
- Bem, senhor D., esta é a Meredith. - ele apontou para a morena
 O Sr. D a encarou por alguns segundos. Não fingia nenhum interesse. 
- Olá, Melanie. 
 Antes de tentar corrigi-lo, olhou para Percy, que mexeu a cabeça em sinal negativo, e ela chegou a conclusão que escutar seu guia era mais produtivo do que tomar suas próprias atitudes, como sempre fazia. E se dava mal em todas elas.
- Bom, senhor. - Percy começou. - Ela precisa de uma camiseta.
- Estão na última gaveta do armário.
- Ah, sim. - Percy disse. - E, a propósito, aonde está Quíron?
- Deve estar treinando os meio-sangues. Afinal, aquele velho centauro precisa trabalhar. - Senhor D. respondeu com rapidez.
    Meredith arqueou as sobrancelhas enquanto Percy se dirigia ao armário. Ela tapou a boca com a mão esquerda, para segurar a risada que estava chegando. Obviamente, não funcionou.
- Centauro? - ela riu com nervosismo. - Quer dizer que tudo aquilo é verdade?
  Senhor D. franziu o cenho e a fitou.
- Mas é claro! - ele colocou a latinha em cima da mesa. - Com quem acha que está falando?
- Com o diretor do Acampamento. - ela disse com um tom óbvio.
- Bem, sou isso também. - ele ponderou. - Mas também sou o deus do vinho! Das festas! E de outras coisas também. Sabe o que isso significa?
- Significa que eu estou na frente do cara que estudei sobre na 5ª série. - ela disse. - Dionísio.
- É isso aí! Infelizmente, por agora, estou preso nesse lugar horroroso. - Dionísio pegou novamente a latinha. - Não se animem, pois eu pretendo transformar as suas vidas em um Tártaro. 
- Já foi o suficiente por hoje. - Percy deu um sorriso amarelo. - Me desculpe, Senhor D., mas, agora, nós temos que nos encontrar com o resto do pessoal novo. O senhor sabe como é.
- Não, não sei, Perry. Vão encontrar com os semideuses recém chegados? -perguntou o deus, demonstrando estar mais interessado do que esteve em séculos.
- Sim, senhor. - Percy respondeu enquanto parava de andar.
- Então devem se encontrar com a nova menina. Uma ruivinha... Como é mesmo o nome dela? Ah, sim, Michelle! Diga que eu a convidei para jogar pinochle comigo e com Quíron qualquer dia desses. Ela é uma meio-sangue divertida. Que estão olhando? Vão embora daqui!
Saíram rápido da Casa Grande. Meredith não entendia muito bem o que tinha acontecido, afinal, Dionísio mal a conhecia e resolvia odiá-la. Por um lado ela se sentiu perturbada pela ideia de possuir o ódio de um deus, mas, por outro, o compreendia. Em geral, as pessoas costumavam tirar conclusões precipitadas sobre ela: ou a amavam, ou a odiavam. Não existiam meios termos, tudo era sempre nos extremos com ela, segundo sua mãe. Porém, Dionísio parecia interessado em Michelle. Enquanto Meredith assimilava as coisas, Percy parecia entrar em um ataque cardíaco ao seu lado. 
- Ele a chamou de divertida, cara! Ele nunca achou nenhum meio-sangue divertido!
- Percy, eu já entendi. - ela tentou acalmá-lo. - Quem sabe ele só esteja no meio de um bom dia. 
- Talvez seja isso mesmo. - Meredith suspirou aliviada. - Vamos logo que eles devem estar nos esperando. E ainda temos que passar no arsenal e ir no chalé 12 para que você troque de roupa.
- Então vamos antes que Dionísio dê um ataque.
  Correram até um galpão, onde Mel pôde testemunhar uma quantidade absurda de armas, que deliciou seus olhos.
- Então, tem alguma preferência? Temos lanças, adagas, espadas... - Percy perguntou.
   Percy tinha uma naturalidade tão grande para falar sobre armas. Parecia que estava perguntando para um filho qual hambúrguer do McDonald's ele queria, Mel concluiu.
- Eu posso ter uma espada? - ela perguntou com animação.
- Ora, pode!
Ela andou de vagar, examinando todas as armas que haviam naquele galpão. Não demorou muito para ela fixar seu olhar na escolhida. Era uma espada feita inteiramente de bronze. 
- Eu quero essa.
- Eu não gosto muito dessa arma. - ele coçou a cabeça. - Pertenceu a Anteu, um irmão mal, digamos. Ela se chama palírroia, que significa...
- Maré. - Mel terminou a frase do garoto.
- Sim. - ele sorriu.
- É ela que eu quero.
- Ok. Vamos, você ainda tem que vestir a blusa do Acampamento.
- Tudo bem. Ei, me ajuda! É assim que se coloca essa coisa?!
Percy riu.
- Não é assim. - ele riu de novo. - Você prende esse fecho no seu cinto. Se não tiver um cinto temos alguns aqui.
- Ah, pode deixar. - e conseguiu colocá-la na bainha de seu cinto.
  Depois de vestir a blusa, ela se encarou no espelho sujo do chalé 12. Tinha cabelos levemente ondulados e pretos, olhos azuis como os de sua mãe, um rosto meio redondo, e lábios variados: o de cima mais fino e o de baixo mais carnudo. Nunca se achou parecida com sua mãe, exceto por seus olhos azuis, que eram idênticos. Percy a tirou de seus devaneios quando a chamou para se encontrar com os outros. Ao chegar, todos já reunidos, Meredith contou para quem pudesse ouvir tudo que tinha visto e o que tinha gostado. E, é claro, o que não tinha gostado.
- Mel, todos nós fizemos esse mesmo tour, então, quer calar a boca e escutar o que os outros tem a dizer?
- Obrigada pela gentileza. - ela disse irônica, seguindo com um riso.
  O tempo parecia não passar para todos que estavam ali naquela noite. Um dos melhores dias de muitos que estavam ali.
Mal sabiam eles que seria o último dia que ririam juntos como se não houvessem perigos no mundo.
Na fogueira, todos dançavam e comiam diversos alimentos. Meredith comia uma deliciosa macarronada. Connor e Travis eram ótimas companhias, apesar de terem a horrível mania de roubar as coisas dos outros. Ela olhou para o lado e viu Eric, Leo e Jason sentados na mesma mesa. Eric mastigava um hambúrguer e ria das palhaçadas de Leo.
-Mel. - Michelle a chamou.
- Que foi?
- Me diz, você acha que é filha de qual deus? - Michelle a encarou com seus olhos dourados.
- Ah, eu não sei. Quem sabe Hermes, ou talvez Hefesto. Mas, para ser sincera, tenho certeza que meu pai não é Dionísio. O cara mal me conhece e já me odeia.
Michelle riu.
- Acho que eu não deveria chamar um deus de "cara", não é? - ela perguntou e Michelle gargalhou.
- Ele é um cara divertido, eu gostei da sua companhia. Sou mais ele do que meus irmãos do chalé. São terríveis. Queria esmurrar um por um.
- Ah, é! Ainda tem isso! Me conte sobre cada um deles. Quero saber de seus irmãozinhos, você, que adora irmãos. - disse sendo sarcástica.
- Oh, cale a boca. - Michelle disse. - O conselheiro do chalé, de cabelos castanhos e olhos verdes, se chama Anthony. Isabella, uma garota de cabelos negros, olhos ligeiramente rosados, que eu tive antipatia aguda. Tem dois gêmeos com os mesmos cabelos e olhos de Anthony, que se chamam Elizabeth e Arthur. Galen, um garoto negro com olhos verdes. Temos o Filéas, um albino. Se a minha memória não me prega peças, tem um menino chamado Bianor, de cabelos loiros enrolados e olhos castanhos. Lou Ellen, uma menina de cabelos castanhos avermelhados e olhos verdes. E, por fim, uma garota pequenina chamada Yolanda, que tem os olhos mais lindos que eu já vi na vida. Eles são cor de âmbar, e os cabelos dela são castanhos escuros e enrolados.

Meredith ouviu tudo que a amiga teve para dizer, em silêncio, apenas concordando com a cabeça. Por um lado, amava ver Michelle animada com alguma coisa, mas, por outro, estava muito cansada e realmente precisava dormir. O problema era que quando ela precisava dormir, ficava mais sem paciência, mais grossa e mais impulsiva. O que, em geral, não dava certo.
  - Mas, o que eu realmente quero saber, é quem é o seu pai.
- Michelle! Pare! - falou alto. - Quem sabe isso não seja uma enorme confusão? Talvez eu nem seja uma semideusa! Posso até ser um grande erro.

A menina pensou por um leve momento que tinha exagerado, pois, a música havia parado e todos a encaravam, inclusive Michelle, que estava boquiaberta.
- Sim, senhorita Astrapi. Você, definitivamente, é um grande erro. 
O homem tinha a aparência de um homem normal, mas, abaixo das pernas, tinha o corpo de um cavalo. Ela assimilou os fatos rápido. Aquele era Quíron, o centauro que Dionísio havia falado. É agora, pensou. Vou ser expulsa do Acampamento.
Quíron se ajoelhou na frente da menina, que achou tudo aquilo muito estranho.
- Ave Meredith Astropi, filha de Poseidon! - ele falou em alto e bom som.
A menina olhou para cima e viu que um tridente flutuava acima de sua cabeça, cintilando em luz azul e verde água.
Era filha de Poseidon.
Era filha do deus do mar.
Era irmã de Percy Jackson.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Capítulo 3 - Nada para comemorar

Capítulo 3- Nada para comemorar.

Coloquem para tocar: Secret - The Pierces

MICHELLE


  Michelle foi acordada por Leo, que a encarava assustado.
- Você está bem? - Leo perguntou.
- O que aconteceu? Tenho certeza que dormi no mastro... Por que estou no quarto?
- Tive que te tirar do mastro. O Sol estava castigando e Nico me pediu para te tirar de lá, e enquanto eu a carregava - ele riu em nervosismo, - Percebi que estava com uma leve febre. Quanto a febre, não se preocupe, já passou.
- Por quanto tempo dormi?
- Provavelmente umas 70 horas. - ele contou nos dedos.
- Mas que diabos?! Eu dormi por quase três dias?!
- Só brincando. - ele riu. - Dormiu por aproximadamente 15 horas.
- Ah, sim. - ela concordou.
- Estava tendo um pesadelo, não é?
- Sim. - cerrou os olhos. - Como sabe?
- Sendo sincero, você fala dormindo. 
- Obrigada por me acordar e tudo mais. - ela tossiu seco. - Mas agora, saia, preciso tomar meu banho.
- Já estou saindo. - ele saiu e bateu a porta.
   Enquanto tomava banho pensou nas coisas que o homem de terno azul disse. Será que ela era capaz de tanta maldade para ajudá-lo a destruir tudo que ela conhecia? Poderia ela confiar naquele homem? Essas perguntas martelavam na sua cabeça, mas foi tirada de seus devaneios por batidas na porta. No mesmo instante, levantou-se da banheira, enxugou-se e vestiu uma roupa: uma blusa roxa, calça jeans escura, coturno e uma jaqueta jeans. Ao abrir a porta deu de cara com Nico, que não estava com a melhor expressão do mundo.
- Não vai entrar? - perguntou, mas ele permaneceu em seu lugar. - Entendo isso como um não. - tentou fechar a porta mas o pé dele a impediu.
- Sabe porque estou aqui, Michelle.
- Tudo o que eu fiz foi trocar de lugar contigo.
- Não pode fazer tudo o que quer! Não é dessa forma com os outros e não será com você também! 
- Pare! Dou a minha palavra de que dormirei aqui nesse quarto horrível de agora em diante.
- Jure pelo Rio Estige!
- Juro. - um raio cortou o céu.
- Não pode mais voltar atrás.
- Parece uma criança mimada, sabia?
- Isso é muito irônico saindo da sua boca.
- Ah, pare de palhaçada! Entre, quero conversar e você vai servir.
   Nico entrou e se sentou no sofá, enquanto a ruiva se jogou na cama. Se sentia confortável para conversar ao menos com ele.
- Então ficou com raiva de mim?
- Sim.
- Me explique então o seu pedido para me retirarem do mastro.
- Eu queria meu mastro de volta.
- Admita que estava preocupado comigo.
- Só queria ficar no mastro. Só isso.
- Sei. Gostou do quarto?
- Não muito.
- Idem.
- Tenho uma surpresa para uma amiga.
- Essa amiga sou eu. Olha, pode até ter dito que me considera uma amiga e blá blá blá, mas você tentou me matar e eu quase te matei. Lembre-se que eu não disse nada.
- Você leu minha mente e sabe da minha vida por completo.
- Bem, acho que isso é válido. 
- Você ao menos não me vê e me olha como se eu fosse algo de ruim.
- Eu gosto de ser diferente.
  Nico ia dizer algo quando o barco tremeu, e ele saiu correndo para fora do quarto. Ao chegar no convés percebeu que o barco despencava do céu.
- O que está acontecendo? - ela perguntou para Nico.
- Algum monstro atacou o barco. - ele alertou.
- Que monstro?
- Não sabemos. O ataque foi rápido e destruiu o casco.
- Ah, sim. - murmurou.
- Volte para o seu quarto.
- O que farei lá?
- Nada! 
- Que saco! - saiu do convés e voltou para seu quarto.
  Os dois dias seguintes foram a mesma bosta: todos ficavam em seus quartos, não interagiam, saiam para fazer as refeições, voltavam para os quartos e de noite algum monstro atacava e destruía uma parte do barco.
  Ainda faltava um dia para chegar no Acampamento e Michelle estava extremamente entediada. Foi até a cabine do capitão e se deparou com Leo.
- Já está tão dependente de mim?
- Cale a boca, inútil!
- Claro, flor de laranjeira. 
- Inútil. - murmurou enquanto se jogava no sofá.
- Animada?
- Por que estaria animada?
- Porque amanhã chegaremos no Acampamento. Seu novo lar.
- Estou mais pra nervosa do que para animada com esse tal novo lar.
  Leo apertou um dos muitos botões e se sentou junto a Michelle.
- Por que está nervosa?
- Porque sim! E se eu não me der bem por lá?
- Você é forte. Já está feita por lá. Ao menos os filhos de Ares não vão a incomodar.
- Duvido muito.
- Se for do seu agrado podemos fazer um acordo.
- Depende.
- Eu te protejo...
- Não preciso da sua proteção e da de ninguém!
- Confie em mim. Estou lá há mais tempo que você e sei que lá tem pessoas que não vão deixar sua chegada passar despercebida.
  Michelle pensou no assunto e chegou a conclusão que aquele trato era vantajoso, afinal.
- O que vai querer em troca?
- Depois eu penso nisso.
- Fala agora senão nada feito!
- Quem perde é você.
- Tudo bem! - disse suspirando. - Eu aceito.
- Pode crer que o meu preço não é nada que você não deseje. - disse se aproximando.
- Leo, sai!
- Vejo em seu olhar que está apaixonada por mim como leões são apaixonados por antílopes.
- Isso foi extremamente ridículo. 
- Sei que me ama e não precisa esconder isso de mim.
    Nico entrou no cômodo e percebeu que Leo e Michelle estavam sozinhos na cabine.
- Interrompo algo? - perguntou. - Posso sair se preferirem.
- Não interrompe nada. - deu ênfase na palavra "nada". - Pode ficar se quiser.
- Não deveria estar no mastro? - Leo perguntou desconfiado.
- Tenho motivos para não estar lá.
- E por acaso um desses motivos é ruivo e tem olhos dourados, colega? - Leo perguntou brincalhão.
- Não deveria estar dirigindo esse... Troço?
- Está no automático. - disse indignado. - É um navio. Não um... Troço.
- Você fala como se isso fosse totalmente seguro.
- Isso é seguro.
- Você sabe que quase tudo que constrói jamais é totalmente seguro.
- Pare de mentir!
  Michelle não estava mais aguentando aquela discussão. 
  A garota se levantou num salto.
- Não vou ficar aqui para escutar discussão!
Ela foi embora e Leo a seguiu.
- Quero ficar sozinha!
- Então vamos ficar sozinhos juntos.
- Pelo amor dos deuses, você é insuportável.
- Só vim pedir desculpas pela discussão.
- Desculpas aceitas. - passou a mão nas mechas ruivas. - Vou dormir. Me acorde quando for a hora do jantar.
- Ok.
- Não foi um pedido.
  Michelle foi para seu quarto e nem sequer trocou de roupa, simplesmente se jogou na cama e logo adormeceu.
Estava na frente de uma casa. Era noite e um vulto a perseguia.
- Quem é você?
- Já se esqueceu de mim? Aposto que seu pai não esqueceria de mim tão fácil. - sua voz era como um sibilo, um tanto feminina.
- Eu conheço essa voz.
- Pelo visto não fiz um bom trabalho quando forcei você e seu pai a saírem de Los Angeles, minha irmã.
  Michelle ficou quieta.
- Eu sempre soube. Desde a primeira vez que a vi eu soube que era a escolhida.
- O que quer dizer com isso?
- Seus cabelos são vermelhos. Foi amaldiçoada. Algo como um castigo bem poderoso.
- Pelo o que eu fui castigada?
- Deixarei que descubra sozinha. Entre na casa e pegue o que seu pai roubou de ti. - a incentivou.
  Em um acesso de coragem Michelle adentrou na casa. A sala seria muito aconchegante se não estivesse queimada. Em cima da lareira haviam porta retratos queimados, com exceção de um. Ela o pegou e examinou a foto. Só haviam três pessoas: um homem alto, com cabelos escuros e olhos negros, que vestia uma calça jeans e uma blusa branca e uma mulher de longos cabelos castanhos e olhos verdes. A mulher era bem bonita e usava um simples vestido verde água. No meio do casal, havia uma garotinha de cabelos ruivos, olhos dourados e que usava um vestidinho vermelho de babados. Michelle se assustou ao ver na foto pessoas que conhecia. Eram ela, aos nove anos, seu pai e sua madrasta, Lâmia. Memórias apareceram em sua mente, memórias essas que se encontravam adormecidas na mente confusa de Michelle.
- Se você quiser eu posso te ajudar a entrar nessas memórias e lembrar. - a voz sussurrante disse. 
Ainda encarando sua versão mais nova, Michelle tomou uma decisão.
- Me ajude. Quero lembrar de tudo que puder.

  A casa se dissolveu. Quando abriu os olhos novamente viu a mesma casa, bem mais nova e limpa. Duas pessoas estavam na sala: ela, uma versão mais nova, que brincava, e Lâmia, com um sorriso diabólico.
  Lâmia, em um segundo, agarrou a mão da criança Michelle e a levou para um quarto no segundo andar. O pai de Michelle também estava lá. Lâmia entrou e trancou a porta com todos dentro do cômodo. Michelle olhou para baixo e viu que seus pés haviam desaparecido, se transformado em uma nuvem cinza e que ela agora flutuava como uma pena. 
- Foi mais fácil do que imaginei enganar vocês! Até nunca mais, criança demoníaca! - Lâmia rugiu para a menininha. - Incantare: Templum Incendere! - ela gritou e a casa explodiu em chamas.
Lâmia desapareceu.
 O pai de Michelle tentava arrombar a janela mas esta não cedia e o atrito começava a machucar o ombro dele. Ficava a cada segundo mais quente e Michelle não demonstrava o quão fraca estava. 
- Querida. - chamou seu pai. - Sabe o que tem que fazer.
- Não, papai! Eu não sei o que tenho que fazer! - ela gritou.
- Apenas diga o que quer que aconteça agora. 
- Não funciona, papai!
- Querida, se concentre, senão todos nós vamos morrer.
- Incantare:  Tutus Semita! - ela disse determinada.
O fogo abriu uma passagem, permitindo que pai e filha saíssem do quarto em chamas.
- A porta está trancada. Querida, vá na escrivaninha e pegue na terceira gaveta a chave reserva.
Michelle assim o fez. Charles abriu a porta com as mãos tremendo e pegou a filha no colo, avançando nas chamas que se estendiam pelo corredor que parecia não ter fim. Sangue escorria da sobrancelha de Charles e o nariz da filha sangrava.
- Suficiente! Não desejo ver mais nada! - Michelle berrou e a cena se desfez, voltando a casa queimada. - Lâmia, sua víbora, apareça de uma vez!
  Lâmia saiu das sombras com o mesmo sorriso diabólico da memória e exatamente igual a foto que antes Michelle segurava.
- Olá, Michelle. Aqueles sim foram os verdadeiros anos dourados.
- Você se casou com meu pai a força, me tratou como lixo a minha vida inteira e tentou nos matar! Isso são seus anos dourados?! - ela perguntou exalando fúria.
- Oh, pelo amor dos deuses, pare de gritar! Tenho certeza que suas habilidades vão além de gritar como se fossemos todos surdos e caquéticos. - Lâmia reclamou. - Estou bem aqui, logo estaremos lutando no mesmo lado e não parece maravilhoso? Saber que não irá morrer pelas minhas mãos?
- Jamais lutarei ao lado de uma cobra peçonhenta como você!
- Jamais é um tempo enorme, não acha?
  Michelle foi acordada por Leo, que a cutucava, insistente.
- Acorda! Hora do jantar!
- Já acordei, pode parar! - ele não fez menção de parar. 
Deu um tapa em sua mão.
- Ai! - ele gritou.
- Não mecha comigo.
- Vai precisar de muito mais para que eu não mecha com você, docinho. - ele disse rindo. - Não acha que dormir de roupa normal é meio desconfortável?
E daí? - perguntou ácida.
- Achei engraçado o fato, apenas.
- Dane-se! Saia logo do meu quarto! - foi empurrando o garoto.
- Já estou indo! Afinal, quem vai pilotar esse troço senão eu? 
- Eu não ligo, só saia de uma vez! 
Tomou um banho e vestiu uma calça jeans e uma blusa com estampa étnica. Encarou a enorme cicatriz que tinha no braço. Seu pai costumava contar que ela adquirira aquela cicatriz numa das muitas vezes que fugira de casa, mas, agora, depois do sonho, lembrou num piscar de olhos como a ganhou.

  Flashback on
  
Tinha acabado de sair de casa e pensava no como aquilo não deveria ter acontecido.
- Ah, pão de mel, não era pra você sair disso viva. - Lâmia disse com sua voz rouca tentando ser gentil.
Com uma rapidez extraordinária, a mulher agarrou Michelle pelo pescoço.
- Não está sendo uma boa menininha, que feio!
- Me largue, sua velha feia! - a menina gritava a ofendendo.
- Você vai se arrepender de ter dito isso, pirralha infer... - não pode continuar com as ofensas, pois Michelle mordeu um dos braços que a segurava. 
Lâmia urrou de dor. E, sem perder tempo, Charles atravessou o monstro com uma espada afiada. 

Flashback off

  Saiu de seu quarto e foi na direção de Meredith, que comia sozinha num canto, encarando Eric, enquanto esfaqueava seu bife com força. Preferiu não interromper a situação porque não queria acabar com outro corte no braço. Andou até o mastro, mas Nico estava lá, dormindo. Não o acordaria. Andou arrastando os pés até a sala de controle, e Leo estava lá, ao contrário dos outros, não fazia nada com grande emoção.
- Já com saudades, cupcake? - Leo perguntou com um sorriso no rosto.
- Vá se ferrar. - falou sem entusiasmo. 
- Uma boa notícia: chegaremos por volta de 15 minutos, segundo os meus cálculos.
- Ainda não encontrei a boa notícia.
- Essa é a boa notícia. - Leo retrucou sem entender.
- Não vejo nada de bom nessa notícia. - respondeu sem entusiasmo.
- Só fomos buscar você para te levarmos ao Acampamento.
- Mais um regime interno para a minha lista. - resmungou.
- Como? - perguntou Leo, interessado nas histórias que Michelle poderia ter para contar.
Mas ela não estava interessada em compartilhar essas histórias. Nem com ele, nem com ninguém.
- Fica na sua.
  Olhou em volta. Nada parecia pior do que estar em regime fechado novamente, isolada do mundo lá fora. Mas, diferente das outras vezes, essa trazia consigo um traço de esperança. Por mais que detestasse a ideia, parecia inevitável a ideia de tentar melhorar. Um esforço é poderoso, dizia seu pai. Não!, seu subconsciente retrucou, não iria se apegar a nenhum lugar. Fugiria, traria história e emoção para aquele tal Acampamento. Teria seu nome estampado em todos os meios de comunicação que teriam os semideuses de agora e do futuro. Seria um personagem caótico que todos odiariam e ela seria independente. Virou-se para Leo, a única forma de vida além dela na sala.
- Olhe em meus olhos, já! - imediatamente Leo obedeceu. - Você e Nico vão me ajudar a fugir do acampamento, porque eu não gosto e não vou viver presa. Estamos entendidos?
-Si-sim. - ele gaguejou.
 Michelle não se deu ao trabalho de responder, apenas se deitou no sofá marrom cobre.
- Posso te chamar de Chelle também? - perguntou ele.
- Por que está pedindo minha permissão? Pelo o que eu sei, você não pediu a autorização da Piper McLean para chamá-la de "Rainha da Beleza". E, mesmo depois de ela pedir para que parasse, você continuou. Também não pediu permissão para chamar a Hazel Levesque de "Miss Sub-mundo". Assim como chamou a Calipso de "Flor do Dia" sem pedir sua permissão. Por que não cria um nome ridículo para mim também sem pedir minha permissão? Não sou diferente delas, afinal.
- Como sabe sobre a Calipso?
- Seus pensamentos são todos sobre ela.
- Quando descobrimos sua mãe eu garanto que seu apelido ridículo virá à tona.
- Que assim seja. - fechou os olhos e caiu no sono novamente.

 Estava em um parquinho, cercada por crianças de diferentes idades, algumas apontando, outras apenas olhando, mas todas rindo. Ela viu ela mesma numa versão de quatro anos, encolhida no centro de uma roda de horrores infantil.
- Ei, Michelle! - gritou um menino de dentes cavalados. - Amaldiçoou quantas pessoas hoje, bruxa? Hein, bruxinha?
- Não sou bruxa. - choramingou baixinho.
- Mas você sabe fazer feitiçaria, lembra? - perguntou uma menina de cabelos pretos e lisos.
- Não pedi para nascer desse jeito... 
Geralmente, a essa hora do pesadelo, Michelle já teria acordado. Porém, para a lamentação interna dela, ainda não tinha despertado, prolongando seu sofrimento.
- Feiticeira de bostinha! Sabia que quando crescer sua existência será uma vergonha para o mundo? Sabia que vai decepcionar as pessoas quem mais ama?
  E como se tivessem ensaiado começaram a recitar em uníssono.

O véu celestial descerá
E a cabeça dividida, bagunçará
Aqueles que estão disfarçados
Facilmente serão subjugados
O esconderijo tardará a aparecer
E pelas mãos do líder virá a padecer

Naquele momento, uma garota, ainda entoando a poesia, entrou no círculo e chutou as costelas da garotinha. As outras crianças seguiram o exemplo da menina e entraram no círculo e chutaram-na, sem deixar de entoar a poesia.
Acordou berrando, horrorizada. Em poucos minutos, todos estavam na sala de comando tentando acalmá-la. Meredith fazia tranças no cabelo da melhor amiga enquanto cantava um rock bem antigo.
- Más notícias, amicos. - Leo declarou.
- Era só o que me faltava. - Meredith disse um tanto irônica. - Quais são elas?
- Chegamos no nosso lar. - o garoto dos reparos sorriu como se não houvessem preocupações no mundo que vivia.
Não podia imaginar o quão terrivelmente errado estava.